Terça-feira, 24 de Maio de 2011

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,Há um perfume no ar, um perfume pestilento que sai do cano da espingarda. Na sala de espera do hotel está um homem velho, usa uma farda de funcionário dos correios, vem oferecer condolências ao gerente do hotel pela morte da esposa encontrada morta e pendurada como um amolgado coador no sótão do hotel. O gerente do hotel disse que a policia está a investigar, que naquele caso não há um motivo para alguém matar e que existem todos os motivos para se morrer, o motivo de se ter os pés na terra e a cabeça no ar, qualquer razão é boa para morrer mas nem todas são boas para matar. Muitas perguntas eram feitas e sempre aquela pergunta: A quem interessava o crime?! Matou-se por dinheiro, por amor, alguma loucura, a inconsciência cuspida da boca, mata-se porque a profissão de matar é a mesma de qualquer outro trabalho e na cabeça de quem mata é um trabalho limpo, há-de haver uma explicação para esse macabro crime, uma coisa inexplicável. Aqui vive gente de bem, nao sei de quem suspeitar?! Suspeitar do barbeiro que corta os pelos ou afia descuidadamente a navalha na garganta e logo o sujeito não vai cantar mais a canção que denuncia a tristeza . Desculpe se com isto faço poesia, sei que a poesia se suja com esta historia, não é a poesia suspeita deste crime,

o ciúme acerta mais fundo, penetra com tanta violência como uma bala no crânio de um rinoceronte, na verdade também o rinoceronte pode ser suspeito, tudo o que mexe é suspeito mesmo a folha do nenúfar poisada nas paradas águas.

 

Estava na hora de servir os almoços, o chefe tinha ido á praça comprar um coador, era noticia no lugar que o ar condicionado tinha avariado, um cheiro podre vagueava por ali, a defunta cheirava a peixe de muitos dias e o turismo era afectado. A equipa municipal da higiene publica estava a limpar o ar, um aspirador sugava as pestilências das narinas daquela pobre criatura.

Desculpe perguntar faz muito que eram casados? lembro-me da voz dela, um sotaque carregado, típico da Baviera. nunca estive por lá, vi algumas fotografias, a respeito da comida não sou grande apreciador, prefiro os pratos Franceses e os vinhos. Sei que escreveu aos seus filhos, a sua filha mais nova está numa escola privada, ensina árabe e álgebra, o seu filho alistou-se no exercito, é atirador. Devem ter ficado perturbados Não ficaram perturbados, ficaram frios e imóveis como a linha vermelha de um termómetro. Sim esta juventude já não se perturba, vivem em constante representação. Está a dizer-me que vieram por causa da herança, não há nada para herdar, umas notas magras, uma professora de musica não ganha muito por isso ela se refugiava no jogo, era um prazer, o prazer é uma expressão tremendamente Francesa, os países frios precisam de saboreá-lo com drama. Vejo que está abatido, antes não tinha duvidas, tem agora muitas, imagina que ela tinha amantes no armário, guardava segredos como se escondem ratos numa ratoeira, acha que ela era infiel, que foi morta por causa de um divida de jogo. Não quero meter palavras na sua boca, as palavras são perigosas e sedutoras, uma bomba que faz saltar muitas exclamações, muitos pontos de interrogação como uma etiqueta. É preciso perguntar ao corpo do cadáver como eram as mãos que lhe tocaram, como lhe tocaram, porque lhe tocaram?

Quero que saiba que no caso de precisar de alguma coisa, posso mandar imprimir uns cartões, uma simples dedicatória eterna saudade e posso ainda encomendar umas flores de plástico e uns óculos três dimensões que fazem parecer as flores muito verdadeiras. Nestas alturas um homem precisa de conforto, uma almofada para descansar a alma nostálgica. Desculpe se roubo o seu tempo, vou regressar aos correios, gosto da humidade do escritório muito agradável neste tempo de calor, há por perto uma videira, costuma trepar pela janela, quando abro a janela parece que me consigo embriagar, uma sensação de regresso ás minhas festas de juventude, ainda tenho fotos, um dia destes mostro-lhe, tenho algumas fotos de família, a minha mulher morreu faz cinco anos, eu pensava que com a solidão tinha morrido o amor, mas agora eu acho que com a solidão se fortalece o amor. Bem espero que tenha um bom dia.

 

Sinto que o Outono é a estação dos apetites, nos dias de Outono fazia amor mais vezes que nas outras estações, gostava de me sentir nostálgico, ficava parado assim que a modos que inerte a olhar os olhos dela como quem fica a olhar o céu. Num dia assim estou a olhar os olhos dela e ela tem os olhos parados, o coração não bate, está morta. Foi uma paragem cardíaca. Depois da morte dela julguei que tinha perdido a vontade de recomeçar, mas nós somos como a videira que trepa á janela e se dá ao sol, todos os dias olho-a da janela e saudo-a em pensamento, acredito que ela é a minha mulher de braços abertos a exclamar que aquele é o seu corpo e o seu sangue. Sei que na cabeça das pessoas deste lugar há a curiosidade sobre o meu interesse a respeito da morte da mulher do dono do hotel. Na verdade sempre gostei de enigmas, costumo decifrar as charadas dos suplementos dos jornais de domingo, escondo-me no gabinete dos correios e passo lá as tardes, levo uma sandes e um termo com refrigerante fresco. Ontem depois de ter estado no gabinete dos correios passou por mim um grupo de soldados a marchar, acho engraçado parecem bonecos articulados, já imaginou a guerra dos bonecos articulados, era um bom titulo para uma peça de teatro. Está a dizer-me que não gosta de teatro, que a voz de certos actores parece como uma faca a penetrar no estômago, tem alergia ao teatro, eu tenho alergia á impaciência, quando estou impaciente aparecem-me borbulhas, sofro deste problema desde criança. Ainda sobre o caso da morte de sua esposa e por ela tocar piano, pois sei que tinha formação clássica, qual era o seu compositor de eleição?! Ela gostava de Wagner, de facto Wagner podia seduzir um assassino para a musica, talvez fosse essa a ultima musica da vida dela e isso depende da crença de cada um, há uma tribo do norte que acredita que depois da morte nascemos em forma de bactéria para entrarmos no corpinho dos doentes e assim curarmos as maleitas dos que cá ficam, imagine nós sermos transformados em bactérias depois da morte e nascermos vamos supor alguma espécie de queijo, um queijo da ilha por exemplo, essas ideias são de facto malucas, coisas de gente selvagem,lugares onde ainda não chegou a civilização, na verdade a civilização não è um bom exemplo, matamos pessoas com malvada delicadeza, quando somos crianças as vacas a pastar no prado è algo romântico, depois quando olhamos para dentro do talho aquilo parece o holocausto, claro que matamos para nos alimentar-mos e matamos para alimentar o ódio sobre o outro, já me vi com muito ódio a esmurrar a almofada, depois dentro de nos fica um vazio, amamos alguém com a mesma intensidade com que sentimos repugnância, estou a dispersar-me, a filosofia toma conta de mim, todo este meu discurso lhe deve parecer incoerente e nao esclarece a morte de sua mulher, não explica porque tinha ela o corpo cheio de buracos tal qual um coador, seria para o assassino filtrar os seus maus instintos?! Deixo a pergunta no ar, hoje faz muito calor, um calor impróprio da época , há um estudo que revela que com o calor os crimes aumentam, o calor provoca tensão, os criminosos gostam de sangue para se refrescarem, ouvi a história que conta que o Marques de Sade se lavava com sangue, tinha uma preferência por cabidela, já provou arroz de cabidela e que tal, bom não é? A minha mulher preparava o melhor arroz de cabidela do universo, vai deliciar as hostes celestiais, era um bom titulo para um filme, os anjos comem arroz de cabidela. Desde que transformaram os cinemas em igrejas deixei de ir, não gosto dos centros comerciais, apanhar com a brutalidade daquele som digital nos tímpanos, na minha idade a audição já não è o que era, o ouvido esquerdo, o ouvido das más noticias está completamente surdo, mas voltando ao assunto sobre a morte da sua mulher, sabe qual foi o resultado da autopsia? - Está a dizer-me que não foi encontrado um autor para o crime, não encontraram impressões digitais, que uma mão invisível levantou a espingarda, premiu o gatilho e transformou aquele corpinho num coador manchado de sangue como se fosse polpa de tomate a salpicar os fios de esparguete, ainda a respeito da morte da sua mulher e da natureza desse hediondo crime o mesmo me lembra aquela pintura da Frida, aquela artista mexicana, a mulher de Diego Rivera, um tipo gordo e comunista, estaria mais na natureza dos comunistas serem magros, a magreza seria uma forma de o corpo representar a fome das classes oprimidas pela gordura capitalista, ainda a respeito da Frida kallo há uma pintura dela que podia ilustrar o crime de que foi vitima a pobre de sua Senhora. Estou a pensar vir almoçar aqui, reserve-me uma mesa no jardim, perto do lago, enquanto como gosto de ouvir o som da água, quero saborear um peixe grelhado acompanhado por um bom vinho, por volta da uma estarei por aqui.

 

Naquela tarde veio novamente a policia, era um grupo da policia cientifica que vinha recolher novas amostras de sangue das paredes, aquele sangue parecia como a tinta das pinturas rupestres, sabia-se que o sangue era rh  negativo, o sótão onde o tal crime tinha sido praticado se parecia a um lugar do submundo, havia recortes pessoas torturadas e cenas do mais obsceno teatro, a mulher do dono do hotel tinha tocado em cabarés e até em prisões para confortar os condenados á morte, é possível que nestas horas os pobres fiquem com o gosto musical mais apurado, nestas situações os homens e as mulheres ficam mais perto da condição animal, a cara de um homem é o focinho de um porco. O céu que parecia cinzento reflectido dos olhos dos que são marcados por estes momentos voltava a ficar azul, a vida que trazia a morte era agora a vida que se reconstituía no novo ar marcado pelo poder do nosso trabalho, das nossas convicções, as nossas convicções são como a força dos barcos empurrando a água, mesmo que seja suja, é a nossa vontade que limpa, é o nosso querer que repõe a ordem mesmo quando precisamos da desordem para a sobrevivência do nosso ser. A mulher do dono do hotel tinha um rosário de cento e oito contas, um objecto comprado num antiquário em Viena, um homem ateu mas devoto incondicional do Deus dinheiro. A propósito do Deus dinheiro e do vicio que ela tinha ao jogo, quando a via a passear no jardim girando a sua sombrinha me lembrava a roleta de um casino e pensava que talvez ela transporta-se um numero mágico, parece que era possuída por um numero fatal, há um momento que nos vai cair a desgraça das escadas abaixo por mais azul que o céu se levante acima dos nossos olhos, reparei que ela tinha um andar leve, como será o andar da morte sobre a nossa pele?! Antes do almoço vou desentorpecer as pernas, o meu médico aconselhou que fizesse muitas caminhadas, que evitasse as gorduras, o colesterol é como um assassino em serie, vou provar como já disse um peixe grelhado com um pouco de manteiga por cima, depois vou fazer a sesta, gostaria de me deitar á sombra de uma macieira e sentir o bicho da fruta a andar-me nos olhos, ter a memória povoada de coisas da adolescência, se ainda me apetecer faço aqueles enigmas, este caso da mulher esvaída em sangue e cheia de buracos como um coador é um quebra cabeças que hei-de solucionar. Naquela tarde o funcionário dos correios dormiu um sono pesado, um sono sem sonhos e sem insectos a passear na ponta do nariz, acordou como se o céu tivesse a infância que ele procurava, a madrugada sorria para eles nos olhares que com ele se cruzavam, caminhava em direcção ao hotel, o dono não estava por lá, aos domingos costumava ir pescar, era um exercício de paciência, atirava o que pescava de volta, atirava a impaciência ao rio, se pudesse premia o gatilho e fazia saltar os miolos daquela cabeça impaciente. O funcionário dos correios sentou-se numa mesa situada no jardim, uma toalha de linho cobria a mesa, lembrou-se quando esteve de férias num pais em guerra e de uma explosão numa praça publica,, a toalha de mesa do café ficou tingida de vermelho, se parecia ao sangue da guelra do peixe, parecia o sangue que jorrava da guelra do mundo. Enquanto saboreava o peixe observava os empregados com os fatos muito vincados, olhava-os e olhava a sua gravata, não tinha muita habilidade a fazer o nó, habitualmente era a mulher que lhe fazia o nó da gravata. Entretanto chamou o empregado de mesa e pediu a conta, ele e o homem falaram um pouco sobre o caso da mulher do dono do hotel, para o empregado aquele crime parecia coisa dos filmes ou quem sabe de criaturas de outro planeta, talvez ela gostasse de jogar á roleta com os Marcianos, talvez aquele corpinho transformado em coador tivesse sido cometido por um artista contemporâneo, havia um artista germânico que usava carne putrefacta para fazer as suas esculturas. O Funcionário dos correios levantou-se, saiu para a rua e seguiu até ao edifício dos correios, olhou mais uma vez a videira que trepava á janela do seu escritório, parecia a imagem de uma escultura grega, veio-lhe á ideia a imagem de uma escultura putrefacta, a visão clássica do mundo futuro. Por aquela altura lembrava-se ele de ter andado por ali uma companhia de circo ambulante, um dos números em destaque era o do lançador de dardos, havia aquela parte em que o atirador tinha os olhos vendados, a tal companhia estava de novo instalada na praça, a policia tinha um suspeito segundo uma noticia publicada no jornal vendido exclusivamente na drogaria do bairro e que servia para embrulhar a mercadoria, o atirador de facas tinha um caso secreto com a mulher do dono do hotel, nas conversas de rua ironizava-se que ele tinha treinado a despontaria no corpo dela, que aquele caso era de faca e coador, a policia interrogou o sujeito que á hora do crime disse estar a tomar um banho com muita espuma e que tinha tido com ela um romance sem importância, uma novela pobre como o destino , a policia quis uma amostra do ADN, saber se o sangue encontrado no sótão correspondia ao dele, o atirador mostrou-se disposto a colaborar, no dia seguinte deu corda aos sapatos e nunca mais ninguém soube nada dele, a policia enviou comunicados por toda a parte, mandou patrulhas cercar as estradas e nada de nada, o atirador de facas possivelmente vagueava por algum estranho lugar ou planeta ou outra opção seria andar ele por terras da China com outra cara graças a uma operação plástica na figura de um turista Americano, chegar a ele era como chegar ao sol. O dono do hotel aproveitou ainda a tarde para visitar a filha, levava com ele uma caixa de costura da falecida onde ela guardava botões coloridos, linhas e bocados de tecido de padrões diferentes que ele comprara numa velha retrosaria. A filha tinha uma paixão por aquela caixa, se por um lado se inclinava para o valor material dos objectos por outro ainda salvaguardava o valor sentimental, ainda conservava um certo modo de vida ,romântico. o olhar dela era austero, parecia que dos seus olhos pretos saiam raios, falava monocordicamente. perguntava sobre os negócios do hotel. O Senhor Simões que era assim que se chamava o dono do hotel olhou para o relogio e despediu-se da filha, não queria voltar muito tarde para casa,não gostava de conduzir de noite embora de noite haja o encanto de se verem os coelhos e as raposas, também tinha de estar no hotel para organizar a ementa do hotel, ir ao mercado comprar legumes frescos e dar um salto á lota para encontrar bom peixe. Quando chegou havia um carro da policia estacionado perto.  Um agente de oculos escuros e cabelos grisalhos aproximou-se e entregou-lhe um cartão com a morada do posto da policia, estivesse lá quinta feira por volta das duas. Naquela tarde no gabinete do tal agente a conversa andou á volta da suposta relação entre o atirador de facas e a mulher deste e se ele sabia deste falatório popular, se alguma vez achou estranhou o comportamento da vitima, as pessoas comentavam que a comunicação entre ela e ele era como um pedregulho a cair sobre uma flor, havia quem andasse a espalhar que ela sofria maus tratos, de certo que não se devia acreditar em tudo o que se dizia , tudo devia ser devidamente investigado com rigor, a policia suspeitava que aquele crime tinha sido encomendado mas faltava no puzzle uma peça . O agente bateu com os óculos suavemente na mesa, pegou numa folha de papel, era o extracto de uma conta, um deposito bancário num banco Suíço, o director do referido banco era cliente habitual do hotel, o agente quis saber se o dono do hotel tinha conhecimento desta transacção, se aquilo que se falava sobre as dividas de jogo em que ela estava metida não tinha sido um plano para desviar as atenções. Por agora não havia mais nada que fosse do interesse da investigação, naquela tarde o acontecimento importante era  a volta em bicicleta, o agente ia estar lá ao vivo sentir a multidão empunhando pequenas bandeiras, gesticulando pela vitória daqueles homens que pedalam, como operários pedalando até ao cume da revolução, ele pedalava num certo sentido em direcção a uma meta, descobrir o verdadeiro assassino, descobrir os actores daquele teatro, fazer cair o pano, aquele crime tinha algo de folclórico e de sinistro, parece que esta terra está contaminada por um insustentável vazio. O dono do hotel regressou ao trabalho, novamente na sala de espera estava o velho funcionário dos correios, vinha entregar o jornal, na primeira página o relatório policial, nada de muito concreto, apenas nas entrelinhas a insinuação de que Simões Costa e o atirador de facas o presumível amante da defunta estariam envolvidos naquele crime, o funcionário dos correios entregou o jornal e saiu, tinha coisas a fazer nos correios, a caminho encontrou uma velha criada do hotel, a velha criada trazia umas flores para por no quarto da filha que tinha morrido num desastre de automóvel, as flores precisam de sol e aqueles que guardamos no coração precisam de serem recordados disse ela com ar de quem  pegava nas desgraças e forçava um sorriso,

contou ainda que trabalhou muitos anos naquele hotel, sabia muita coisa, sabia  que o atirador de facas e o marido da morta tinham algum negócio, que aquele dinheiro ganho por ela no jogo, uma parte foi para pagar dividas anteriores relacionadas com o jogo, ela era viciada em sexo , costumava ficar fechada no quarto e fingir que era possuída, depois saia do quarto aos gritos como uma actriz pobre, a velha criada tinha visto tudo com os olhos que a terra havia de comer, que indecências , agora que estava velha é que via as porcarias do mundo, aquele crime tinha posto tudo em alvoroço, o Senhor diga-me honestamente estas coisas nem no tempo da rainha, se ela tivesse ficado no País dela, mas ninguém pode prever, a cabeça manda e o corpo desmanda, que posso dizer mais, não tenho muitas letras, mas vejo para alem deste nevoeiro cerrado e o meu palpite e que isto fique entre nós o criminoso para mim foi o marido

publicado por relogiodesacertado às 00:12
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

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As asas cortam como facas As asas cortam como facas, sobrevoam o silêncio das palavras olhares magros e incertos dos que caminham no vento. As asas cortam como facas as almas angustiadas dos que não arriscam qualquer destino, dos que preferem ficar para morrer. As asas não deixam adormecer e o céu pode cegar erguer os braços, respirar beber o perfume gasto do mundo. As asas cortam como facas talvez os sonhos e quem sabe as mãos que na terra são como árvores. Lobo 010 Continuamos a tirar vermes da cartola O mundo anda perdido" e eu pergunto onde anda ele?! O mundo dizem-me é um rato de cauda longa a abanar-se pelo esgoto tal um fio com que ligamos a televisão. Podemos ver o esgoto do mundo no grande ecrã, no papel do jornal, na revista que nos leva ao esgoto da intriga. Á primeira vista tudo parece funcionar, no final das notícias vem o talk show a fingir um ar de saneamento básico. O povo indignasse mas não para de comer e quando desliga o aparelho tudo continua sujo. O que resta da magia é uma ilusão. Assim continuamos a tirar vermes da cartola. Lobo 010A rapariga dos sapatos vermelhos parte 1 A rapariga dos sapatos vermelhos entornou vinho sobre a curva do joelho, naquele instante nascia um rio no seu corpo e ela ficou a ver passar as nuvens desfilando na janela daquele arranha-céus. Toca a campainha, um disparo brutal sobre os pés do mundo. A rapariga dos sapatos vermelhos abre o jornal e cai inerte no chão... LOBO A rapariga dos sapatos vermelhos parte 2 A rapariga dos sapatos vermelhos ou os gestos do homem fogo a vestir-lhe os pés. A rapariga dos sapatos vermelhos, os pés dela no espelho. O corpo da cidade projecta-se no espelho e ela a rapariga dos sapatos vermelhos equilibra-se numa imaginária linha que parece um fio de cabelo lobo 010 A rapariga dos sapatos vermelhos parte 3 A rapariga dos sapatos vermelhos é só e apenas a rapariga dos sapatos vermelhos. A rapariga dos sapatos vermelhos é um filme, o argumento é sensual e pobre, não há paisagem, apenas uma luz a cair no corpo. A rapariga dos sapatos vermelhos com o cigarro apagado nos lábios Lobo Porque ando assim Porque ando assim e estou tão só, sem aves, nem peixes. Porque a palavra me sabe ao medo que tu me deixes. Porque ando assim pelas ruas arrastando o corpo como as mãos que levam a noite para o quarto do cansaço. Porque ando pelas casas como o vento entre os rebanhos e tenho aquela impressão de ter a luz das coisas que já não tenho. Lobo 010 Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios talvez se possa pintar as nuvens ou as fotografias onde não se distinguem os pássaros das pessoas. Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios se, se pintassem os lábios a comida sabia ao aroma da cidade e haveria no ar um cheiro de cabelos ao vento. Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios. Lobo 07 Quando tudo o que se finge é imperfeito quando tudo o que se finge é imperfeito E quando mais nada não se pode comparar e a madrugada for o sentido de quem está habituado a estar perdido e a se encontrar. E quando tudo o que se finge é imperfeito a gente chama o mar e o mar nos vêm ao peito. E quando tudo o que se crê é mais que a fé acreditamos no que vêm depois e não sabemos porquê. E quando mais nada se pode comparar o mundo tem a nossa solidão e o jogo é só aquele instante em que o amor se faz no chão e o sentido de acreditar é mais que a força de um gigante. E quando tudo não é mais nada os olhos olham o espelho e o corpo se vê mais velho. E quando tudo o que se finge é imperfeito a gente chama o mar e o mar nos vêm ao peito. Lobo 010 Bonecas insuflaveis Bonecas insuflaveis máquinas de literatura Sandras e Marias gritos á pátria orgasmos e anorexias. Segredos nas roupas interiores e facas que cortam as lágrimas mais duras poemas que nunca vão ser poemas de amor. Bonecas insufláveis Sandras e Marias que andam em viagem como os insectos nas cabeças vazias. Maquinas de literatura Sandras e Marias gritos á pátria orgasmos e anorexias. Lobo 010 Pessoa ainda não morreu Pessoa ainda não morreu Almada ainda não morreu mas aquele que finjio e não viveu por não acreditar no sonho, morreu. Pessoa tinha um império Almada uma catedral e o homem de hoje não sabe de onde surge e acordar é ficar sempre mediocre, viver sempre fraco e morrer sempre igual. Pessoa não tinha nenhuma pátria Almada nenhuma belesa enaltecia masa agora os que tem voz ficam herois em causas vazias. Pessoa não tinha filosofia Almada tinha contradição e houve outro que cantou sublime o amor de um país infeliz e bruto esse crime de se ter fome e não se saber a sabedoria desse enorme pão da nossa alma em viagem, poesia onde a coragem não fica mais nos livros. Pessoa ainda não morreu Salazar quem dera Bocage é essa comédia o riso que falta aos que usam a moeda valor com que se compra a pátria merda. Pessoa ainda não morreu Botto tinha aquela mania e Eugénio outra mania tinha e cada qual essa parte sensual de uma bandeira pénis que se levanta, essa pátria orgasmo que da lusitana feira apregoa o nacional e ridículo pasmo. Pessoa era muitos Florbela era só e Sebastião foi o rei menino de uma nação pó. Pessoa, Almada o Gama e as Índias ainda a madrugada dos mares navegados em nada. Grandes talvez neste nosso passado desenhado em circulo. Pessoa podes morrer Almada podes tentar. Ainda falta acordar Portugal. lobo 010 Uma velha bordava Uma velha bordava e o comboio passajava na linha amanhã há galinha e há canja e mesmo com fome a gente se arranja. Um homem dormia dentro de uma gruta e outro dizia que boa era a fruta. Uma velha bordava e o comboio passajava na linha caldo de galinha puré de açafrão o homem da gruta dormia no chão e outro sonhava que boa era a fruta. Uma velha qualquer dizia vaidosa que já fora mulher formosa uma velha bordava lenços de assoar e o comboio passajava na linha do litoral e vi alguém a cantar trovas confusas era o rio com o mar dançando á chuva. Lobo A noite tem pele A noite tem pele, talvez no Inverno tenha rugas, esta história foi contada pelo patriarca Jacinto ás crianças do acampamento. - A noite é escura como a nossa pele dizia ele olhando o pequeno João o mais novo dos ciganos. - A noite não gosta de tomar banho, é como os ciganos, ria uma cigana gorda batendo com os pés no círculo da fogueira acesa. - Conte a história da noite! - Já contei vezes de perder a conta. - Você conta sempre diferente. - Conto se comeres o caldo e não esperneares. - Como tudo. - Bem; era uma vez uma rapariga bonita como o sol e que vestia a noite, contavam naquele lugar que ela era a própria noite cobiçada por toda a classe de homens, desde os trovadores, aos negociantes, os homens políticos, os religiosos, todos a desejavam. Desde pequena que estava destinada a um rapaz que tocava a sua viola nas andanças das feiras. - De que cores eram os olhos dela perguntava a pequena Mariana olhando uma dessas revistas cor-de-rosa que a mãe tinha lá por casa. - Eram castanhos. - Castanhos como os olhos das princesas?! - Castanhos como os olhos da terra que é nossa rainha e que nos dá a água e o fogo, a musica suave e os frutos maduros. - Jacinto é um poeta comentou um rapaz que construía caixas flamengas. - Continuando estava ela destinada a ser desposada pelo cigano tocador, o que não era coisa da sua vontade, mas é da nossa tradição. - E o que é a tradição? - A tradição é os príncipes casarem com as princesas e os ciganos com as ciganas. - E qual é a tradição da noite. - A noite, essa que dizem ser da raça cigana vinha descendo a montanha quando encontrou uma velha, ela sabia que ela tinha o poder de mudar os destinos. - Ela não ia casar com o cigano trovador? Perguntou Mariana. - Ia mas o rapaz morreu. - Morreu?! De que doença? - Morreu atingido por um raio enquanto tocava debaixo de um castanheiro. - Nunca mais jogo ás escondidas debaixo da árvore que está perto do rio, o raio pode descobrir-me diz um pequenito com o ranho pendurado no nariz. - O motivo do raio ter caído é que o anjo que faz os casamentos a olhava a ela tão triste que até parecia que o mundo andava em suas guerras e outros males por causa de viver um amor contrariado. O anjo sabia da tradição e sabia que aquela que pode unir pode também separar. Ter de viver um amor forçado parecia a sua sina para o resto dos dias. Então o anjo foi falar com a morte. A morte esta na sua tenda. - A morte vive também numa tenda como nós? - Sim vive numa tenda e é errante como os ciganos. O anjo foi então falar com a morte. - Morte preciso de falar contigo! - Eu não trato de coisas de amor. - Como sabes tu que o que me trás á tua presença são assuntos do amor. - Eu tenho também comigo a sabedoria da vida. - Se tens a sabedoria da vida, deves também conhecer os propósitos do amor. - Eu conheço a prudência das palavras e ás vezes na boca dos amantes há dizeres imprudentes. - Que estás tu a dizer? - Se o amor acontece feliz, dizem que foi a sorte que lhes bateu á porta, se o amor acontece infeliz ou desilude dizem logo que foi o azar, dizem até que o azar casou com a morte. Eu estou presente quando o amor se deixa cair na imprudência de se teimar cego. - Não te conhecia esses dotes para a filosofia! Mas o que eu te venho pedir é que resolvas este enigma que me trouxe a ti. - Dizem os homens que eu sou um enigma que eles não conseguem resolver e tu o anjo do amor vens pedir-me a mim que resolva o enigma do amor, por certo tão difícil como o do amor. - Tu sabes que trago sempre comigo um arco e um punhado de flechas, conheces a minha certeira pontaria... só que eu não consigo unir o que a vontade da tradição quer separar. - Quem é que quer separar quem? - Uma rapariga cigana que dizem parecer a própria noite está destinada a casar com um jovem cigano tocador das feiras. - E ela não quer... - Não, ela ama um velho artesão. - Sim! - Tu podias arranjar uma morte ao rapaz. - E como posso eu fazer isso?! - Tu és a morte. - É verdade mas vai-me faltando imaginação. - Isso não te falta. - Na verdade já não acho o trabalho muito divertido. - Olha! Dá-lhe uma morte num dia em que ele esteja mais inspirado. E então a morte matou o cigano tocador e pôs-se a dançar flamengo. - Se eu conseguisse sempre ver morrer alguém feliz, nestes últimos tempos foi uma lista cheia de gente doente, de guerras e lutas entre religiões e etnias, um ver se te avias de desgraças, nem percebo como consigo comer tanto. De seguida o miúdo com o ranho pendurado no nariz exclama! - A morte é gorda como a minha avó. - É gorda e só come porcarias dizia outro miúdo. - Ó pai Jacinto a morte tem os dentes estragados? - Deve ter, mas continuando a história pergunto se vocês estão a gostar? - Sim. - A morte que sempre aparece em dias cinzentos resolveu que aquele dia em que o rapaz ia morrer seria um dia de sol. - E depois?! - Depois vestiu a sua pele de um tecido suave como uma nuvem da manhã e suavemente empurrou o rapaz para debaixo da tal árvore e segredou-lhe ao ouvido: - Toca uma música alegre. E o rapaz tocou. A sua música era tão surpreendente que o céu exclamou a sua admiração trovejando elogios e foi então que a morte lhe lançou um raio no mesmo modo de quem lança flores ao palco depois da actuação do artista. - Quando há trovoada é porque Deus comeu feijão pergunta João o mais novo dos ciganos. - Se ele provasse a feijoada que a minha Mãe faz andava sempre a correr para trás das nuvens. - Depois cagava os homens todos. - Mas continue a contar-nos a história! - Aconteceu pois que mal se soube da morte do rapaz todo o acampamento ficou lavado em lágrimas e num tal pranto que se confundia com a brutalidade de uma praga. Durante a madrugada a rapariga, essa que se pensa ser a noite resolveu fugir. Ora sem que ninguém desconfiasse costumava encontrar-se ela ás escondidas com o velho artesão de nome Jeremias. Fugiu ela deixando atrás de si a marca dos seus pés nus no frio da terra. - Pai Jacinto quero fazer uma pergunta disse a pequena Mariana com o dedo levantado. - Faz. - Porque fugiu ela descalça? - Talvez não tivesse sapatos. - Se calhar tinha uns sapatos que lhe apertavam os pés disse em modos de palpite a cigana gorda. - Ela fugiu descalça para não acordar a família. - É verdade foi o que se passou mesmo. A moça fugiu pois com o tal do velho artesão, ele fazia sapatos e roupas de pele capazes de aquecer a terra e fez para ela umas roupas abençoadas com o calor do sol. A viagem que eles iam fazer era uma viagem perigosa, não por causa dos bichos selvagens que iam encontrar, não por causa dos salteadores pois eles eram pobres, possuindo apenas o amor que para as pessoas da aldeia era incompreensível. O perigo daquela viagem era o ódio que se tinha acendido na família do rapaz da nossa raça que pretendia castigar a noite essa cigana ainda hoje errante e amaldiçoada. - Mas é ela que faz dançar o nosso povo diz o rapaz que faz e que toca as caixas flamengas. - Faz dançar as criaturas e influencia os movimentos da mulher quando vai parir. De repente fez-se uma pausa, uma rapariga cigana que tinha ficado até ao momento calada pergunta se ela a noite era virgem. - Sim, se não o fosse não podia ser prometida ao cigano bailador. - Ele não era só tocador?! - Era tocador e bailador. - E que aconteceu por ter fugido com o velho artesão? - O pai do rapaz chamou á sua presença dois rapazes novos e corpulentos, faziam eles contrabando de tabaco e andavam sempre com duas pistolas á cintura, um deles tinha os dentes forrados á ouro e quando ria encadeava os olhos a qualquer que por ali passasse. O pai do rapaz disse numa voz firme e autoritária: - Procurem o artesão e tragam-no até mim! - E se a encontrar-mos a ela que fazemos? - Rasguem-lhes as roupas e tragam-nos nus. - Com o frio que faz vão ambos morrer falou um dos rapazes. - Façam o vosso trabalho! Quando estiver feito dou-vos dois sacos de moedas de ouro. Todo aquele dia andaram á procura deles, levaram pois dois cães do melhor que havia na arte de encontrar. A rapariga e o velho artesão estavam dentro de um buraco de terra e parecia que aquele esconderijo era tão secreto que parecia ate ser desconhecido do mundo. Ao longe ouviam-se os latidos dos cães, de repente o grande buraco de terra iluminou-se e á frente deles apareceu o cigano bailador erguendo os braços ao alto e entoando óles. - Bons dias senhorita. - Em nome de Deus vai-te embora. - Venho em nome de Deus para vos proteger - Vai-te embora! - Sei que sois perseguidos, o meu pai enviou dois jovens para que fosseis capturados e trazidos nus á sua presença, eu com a minha musica provocai-lhes tal encantamento que agora seguem eles a estrada do bosque nús como dois parvos da aldeia. - Porque razão me perdoais!? - Que crime foi o vosso? - Talvez o crime de não vos amar, mas o meu coração bate por Jeremias. - Não me amais, mas não és minha inimiga - Não sou inimiga de ninguém... que má fortuna a minha. Andar a fugir da própria família e ter agora o destino mais incerto que antes. - Posso tocar para vós. - Sabes alguma canção Bretã perguntou Jeremias esfolando uma ovelha que tinham encontrado no bosque quando iam a poucos dias de caminho. - Conheço esta canção. E o rapaz tocou uma música Bretã e o velho artesão ia batendo com os dedos na terra e as palavras saíam como fumo das chaminés: ela é a noite e eu sou o seu velho trovador. E o refrão repetia-se. A seguir ouviu-se um barulho de um ramo a mexer-se. A rapariga, o velho artesão e o fantasma em carne e osso do cigano tocador levantaram as cabeças para o céu que se via daquele buraco destapado e viram a sombra de uma raposa a correr. O sol que brilhava fazia reflectir na sua pele a cor vermelha que depois era projectada no tronco das árvores e nas nuvens que deslizavam com o vento dando cor á água e ás canções da infância. - Hoje aprendi uma canção nova na escola disse a pequena Mariana. - Que canção aprendeu perguntaram as outras crianças? - Aprendi aquela que diz assim: a noite estava escura, não havia luar, ouviu-se ao longe um cucu a cantar. O resto já não me lembro. - Prosseguindo, quando a rapariga e o velho artesão se encontravam no fundo do grande buraco da terra não havia lua. - Quer dizer que estavam ás escuras atirou á sorte o rapaz cigano que sabia fazer caixas flamengas. - A luz que havia era a que havia nos olhos dela, a paixão vocês deviam de saber pode destapar toda a escuridão e a lua que não estava visível no céu estava dentro dela assim como um pássaro dentro da liberdade. - Pai Jacinto quanto tempo estiveram eles na profundeza daquele buraco. Se fosse comigo ficava cheio de medo, podia encontrar uma cobra ou um espírito. - Se fosse bonito como o cigano tocador. - Como sabes que o cigano tocador era bonito perguntou o rapaz á pequena Mariana. - Devia ser, se fosse feio não morria com música. - E como é que morria? - Morria a ver a sua cara reflectida no lago, uma cara verde como a de um sapo. - Há sapos bonitos! - E há sapos que fumam - A rapariga, ou aquela que diziam ser a própria noite achava-o a ele muito bonito, mas não é isso o que decide a paixão, o reflexo da água ama o sapo feio porque lhe vê o coração e porque a natureza tem aquele batimento que é a vida. - A vida é uma mulher? - É uma feiticeira. - E que feitiços faz? - Muda de forma. - Como?! - Um dia é homem outro mulher e outro água do mar e outro ainda luz do fogo. Mas seguindo com a nossa história os dois jovens ciganos que tinham sido mandados em perseguição dos dois amantes corriam agora nus por aquele bosque. A sombra deles era visível na pele da raposa. Depois de algumas horas de corrida parece que tomaram noção do estado que a nudez deles evidenciava. - Que fazemos assim nus? - Não sei. - Parece um sonho estranho! - Que frio!... Acho que vamos morrer. - Vamos fazer fogo! - Com o vento que faz não sei se vamos conseguir. - Enquanto estavam neste diálogo á frente deles estava a raposa com a sua pele vermelha. - Tirem-me a pele ordenou ela. - Estamos mesmo doidos, será que foi alguma coisa que comemos. - Lembro-me de ter comido só uma maça que apanhei no caminho. - De seguida junto a eles estava uma formosa mulher envolta num manto, eles viram-na a despir-se e a lançar bocados daquele manto para os pés deles. Começaram a vestir o manto, faziam-no de olhos no chão, mal acabaram de se vestir estava ao pé deles uma poça de sangue e não havia nem vestígios de mulher nem de raposa. - Estou com sede disse um deles. - Já não tenho água e o rio ainda está longe. - Podia beber aquela poça de sangue. - Parece da cor do vinho. - E eles provaram? Perguntou a cigana gorda - Provaram. - E a que é que sabia? - Um deles disse: sabe a vinho quente. O outro pôs uma ponta do dedo na poça e exclamou: - É doce! - Olha agora me lembrei que temos de regressar. - Não me apetece. - A mim também não, nem sei o que vamos dizer ao nosso chefe. - Se contamos aquilo que nos aconteceu não vão acreditar em nós. - E... se dissermos que fomos apanhados por salteadores que nos levaram o dinheiro e as roupas e que foi um peregrino que seguia em peregrinação á terra santa que nos deu roupas e dinheiro recomendado-nos a estalagem de um amigo. - Não vão acreditar em nós; os ciganos não são aceites nem nas igrejas, nem nas estalagens. - Podemos dizer que estávamos disfarçados de religiosos. - Pois! Nem sabemos o que inventar. - E se nós entrássemos no acampamento vestidos como leprosos, assim éramos expulsos e podíamos seguir outro rumo nas nossas vidas. Vamos fazer isso?! - Eu tenho mulher e filhos, sabes, sempre que matei um homem me lembrava que podia estar a matar um pai de família e muitas vezes me lembrava dos meus filhos. - E nunca recuaste? - Uma ordem é para ser cumprida, se eu não cumprisse perdia a honra e o respeito da minha família. - Vamos voltar?! - Se quiseres ir, tu não tens família, podes seguir outro caminho, posso dizer-lhes que te matei. - Estavam eles nesta conversa continuava o patriarca, quando ouviram o som das trombetas. Estavam rodeados dos guardas do rei. - Estão presos disse um rapaz novo que devia ser o comandante. - Que fizemos nós. - São ciganos, filhos do diabo. De seguida um outro soldado segreda algo aos ouvidos do comandante. - Dizem-me que um de vós matou um homem por não vos querer na sua terra. - A terra é de Deus. - Também a vida é de Deus. - Vocês andam a roubar os pobres camponeses e quando não querem pagar os impostos vocês matam-nos, eu tenho na minha conta muitas mortes, mas quase todas foram para sacar o dinheiro dos ricos e para matar a fome aos filhos. - Levem-no gritou o chefe deles. - Que aconteceu ao velho artesão e á rapariga? Pergunta Mariana. - O velho artesão caiu doente, parece que foi atingido por febres altas, suspeitava-se que a peste o tivesse atacado, durante esse tempo a febre fazia-o delirar. Ao lado dele estava a rapariga com o seu vestido longo e negro, o tocador cigano e descendo vinha a raposa num modo de andar elegante, mal pisou o fundo transformou-se numa mulher, a rapariga reconheceu na mulher a velha que tinha o poder de mudar destinos. Ela voltou por momentos á forma de raposa e ia lambendo a testa do artesão com o propósito de lhe fazer baixar a febre. - Ele tinha mesmo peste? Perguntou uma rapariga que era irmã do cigano que sabia construir caixas flamengas. - Julgo que sim respondeu o patriarca. - E como é que ele apanhou o bicho? - Talvez alguma ratazana ou algum enfermo com o mesmo mal tivesse estado naquele lugar deixando o cheiro da doença. - Não sabia que as doenças tinham cheiro! Mas conte! O que aconteceu depois? Ele morreu?! - Morreu. - Coitada. - Pois é, agora estava sozinha, quero dizer que uma parte dela estava sozinha mas por outro lado tinha uma nova família, a velha metamorfoseada de raposa e o cigano bailador que era até aquele momento o seu fantasma protector. Depois da raposa ter arrastado o corpo e ter escavado com as patas uma cova do tamanho de um poço, enterrou o artesão e logo cobriu de terra e humos o lugar. A rapariga estava com ela quando isto se passou e quando a raposa voltou á forma de mulher, ela a convidou a viver na sua companhia e a ser sua aprendiz, lhe ensinaria todas as magias que sabia fazer desde criança. A rapariga que diziam ser a noite perguntou se ela lhe ensinaria a forma de se converter num animal, podia ser um pássaro. A velha que agora se apresentava na sua forma jovem disse-lhe que um pássaro podia ser uma coisa perigosa pois por aquele bosque eram frequentes os caçadores e se ela adoptasse a forma de raposa era mais fácil esquivar-se dos cães e das setas. Contou ainda os seus casos amorosos com os caçadores, eles perseguiam-na como raposa e ela aparecia-lhes como mulher, uma jovem mulher como a água fresca do rio. Depois namorava-os deixando-os loucos e cegos de paixão que se entregavam ás filhas dos reis ou ás estrelas que brilhavam cintilantes no ferro das espadas ou nas gotas de água que caiam da montanha e que na loucura deles pensavam ser uma mulher vestida de terra. - Quanto tempo viveu a noite com a raposa encantada? Perguntaram todos. - Viveram juntas alguns anos, não viviam sempre no mesmo sítio. - E como faziam? - Umas vezes viviam em buracos que os castores cavavam, outras alturas dentro do tronco de árvores velhas e centenárias, também habitavam celeiros abandonados. - E onde é que ela aprendia a magia? - Quando iam á procura de alimento e paravam para comer os animais caçados ou provavam como sobremesa o néctar de certas flores, a mulher assumindo a forma de raposa escrevia com as patas a fórmula das metamorfoses, ela conhecia também a metamorfose das estações. - A Minha avó diz que faz sol quando devia chover. - A tua avó é uma metamorfose diz um rapaz - Olha! Não chames nomes á minha avó que não é para aqui chamada. - Tenham calma! Estava eu contando o modo como viveram durante certo tempo e como a rapariga aprendia com a velha as artes da magia. Alem da arte da metamorfose ela aprendeu a fazer remédios que tratavam algumas doenças e dentro dos frascos onde se introduziam as substâncias de certas flores ou fungos ou ainda o sumo de certos frutos havia um segredo revelado ao homem pela natureza. Acontece que naquele tempo a igreja perseguia todos aqueles que praticassem a medicina popular eram chamados de bruxos e deitados á fogueira. Muitos anos antes a velha costumava andar nas feiras onde distribuía gratuitamente remédios aos enfermos e vendia compotas que ela confeccionava. Pelas feiras andavam os guardas do rei. Certa ocasião os guardas tentaram prende-la e foi graças á magia da metamorfose que conseguiu escapar. Agora não queria voltar ás feiras pois não queria por em perigo a vida da rapariga cigana que embora estivesse aprendendo as artes da metamorfose ainda não dominava com segurança o processo magico. A rapariga cigana que se dizia ser a noite, essa noite que veste os céus e que se fez mulher graças ao desejo dos homens que pedem ás estrelas a realização dos seus desejos de amor impossível, ela que nascera de um ventre cigano e que descobrira nos olhos de um velho artesão o amor universal que não pode estar sujeito a nenhuma lei olhava o buraco escuro onde ele e a mulher que naquele momento tinha a forma animal da raposa que deitada sobre o corpo dela a aquecia. - Uma raposa deve ser quente como uma fogueira - Eu nunca cheguei perto de uma. - Se chegasses podia morder-te - Queimar-me é que não. - Uma raposa pode queimar diz o pequeno João. - Explica lá desafiaram os outros miúdos em coro. - Se ela for a raposa cor de fogo. - A raposa da história parece cor de fogo. - Se a raposa fosse quente como o fogo ela queimava-se e as princesas não se podem queimar diz a pequena Mariana com aquela sua expressão viva nos olhos. - A noite não é atingida pelo fogo, ela é como a água diz o miúdo que andava sempre com o ranho pendurado no nariz. O patriarca cigano resolveu fazer uma pausa pois a noite ia longa e os pequenos precisavam de descansar. No dia seguinte voltou a ele a contar mais um pouco daquela história: - Enquanto a raposa se enroscava no corpo da rapariga cigana o espírito dela viajava em sonhos por lugares que ela conhecera durante a fuga que empreendera com o velho Jeremias, sonhou que era criança e que o pai a embalava e lhe cantava canções de embalar e ela ria-se quando na aldeia lhe diziam que era parecida com o sol e bonita como ele. - Ela era filha do sol não era? Perguntou em duvida um rapaz que estava olhando a sua fisga de atirar aos pássaros. - Era filha do sol que como vocês vão ficar a saber é ourives. - Porque é que ele é ourives? Perguntaram. - É ele que faz os colares e as pulseiras de ouro que as mulheres ciganas usam. - É mesmo assim pai Jacinto? Perguntou Mariana. - Na verdade é uma lenda cigana. - O que é uma lenda? - Uma lenda é a verdade dos sonhos que não acontece sempre na nossa vida. - A história que nos está a contar é uma lenda. - O que vos conto é uma verdade guardada à muito tempo na memória dos contadores de histórias, uma história que atravessou os mares, que entrou nas prisões, que apaixonou poetas. - Conte mais! Pediam os miúdos. - Tinha chegado aos ouvidos de um dos mais famosos piratas que havia uma criatura que sabia fazer o ouro mais valioso da terra, o sol lançou um dos seus raios ao ar que caindo em cima de uma mulher lhe provocou dores de parto e o nascimento de um rapaz que seria destinado a trabalhar o ouro, ouro que tornaria bonitas todas as mulheres e importantes todos os negociantes cujas roupas fossem bordadas a ouro. O famoso pirata desejava encontrar-se com o ourives para tentar sacar-lhe o que considerava ser o segredo mais valioso e a seguir matá-lo. A rapariga cigana acordou e viu que a raposa ou a mulher velha, ou a mulher nova já não se encontrava ali, levantou-se e andou pelo bosque, andou mais um pouco e presa a uma armadilha estava a raposa que daquela vez não conseguira usar a arte da metamorfose e por isso estava com o pêlo esquartejado pelos ferros afiados da armadilha e a boca jorrava sangue. A rapariga ajoelhou-se e chorou, chorou um choro tão forte que se podia escutar o mais longe possível. Agora estava sozinha naquele bosque, não confiava em homem nenhum, dentro dela havia um desejo de vingança, matar aqueles que tinham perseguido até á exaustão do ódio a sua companheira, a sua raposa e velha sábia que conhecia a natureza dos homens e sabia que um dia não ia escapar da única armadilha onde toda a criatura acaba por cair e que é a morte. - Foi a morte que pôs lá a armadilha? Perguntaram as crianças. - Foi a guarda do rei. Nesse dia vestiram a morte e mais tarde haviam de a encontrar. - A história está a ficar triste lamentava-se a pequena Mariana. - Quero dizer-vos que embora tivesse perdido a companhia física da velha que tinha o destino de ser raposa e o destino de ser jovem mulher, todas as criaturas daquele bosque, desde o animal feroz ao animal mais dócil se entregaram ao seu serviço para a fazer sentir que o mais duro da vida é como um vento que pode empurrar de novo a alma para uma nova vida desabrochando sempre a flor do amor. A firmeza de ficar de pé, é a prova de que somos resistentes e que a reafirmação da liberdade é uma luta nossa e da natureza. Enquanto a jovem cigana e conhecida por todas como a mais bela, assim a noite que adormece os homens resolveu ir em viagem os dois ciganos que tinham sido mandados em perseguição da rapariga e do velho tinham conseguido fugir. Ouviram também eles falar do famoso pirata que cobiçava o ouro que diziam ser aquele que sai das mãos do sol e queriam eles fazer um acordo com o tal pirata e sua tripulação. O pirata conhecido com o nome de Vagos costumava parar num bar que se chamava gavião das ondas, bar frequentado por prostitutas, mendigos, nobres que tinham perdido fortunas e que agora exploravam o negócio da prostituição. Os jovens ciganos fugidos da prisão, andavam disfarçados de leprosos para que não fossem reconhecidos. Chegaram ao cais onde ficava situado o tal bar, já sem o disfarce perguntaram quem era o famoso Vagos, o que lhe indicaram uma mesa onde estava ele mais outros da sua guarda jogando á bisca. - Quem é que quer jogar? Perguntou ele num tom resmungado - Nós responderam os ciganos que estavam fugidos. - Tendes dinheiro? Ou querem uma corda á volta do pescoço? - Temos uma informação. - Falem! - Tem que ser em particular. - Levem-nos ao meu navio, falamos lá, espero que seja uma boa informação. Tomem conta deles! - Chefe pode ficar descansado disse um deles. - Eles iam contar o segredo do ouro ao pirata? Perguntou o pequeno João. - Sim e sabem vocês em troca de quê? - Não responderam em coro! - Em troca de uma parte desse ouro... tanto os ciganos como os piratas sabiam da existência do ourives que era o sol na forma humana mas não sabiam onde era a sua morada. Os dois jovens iam inventar que conheciam o sitio e em troca de uma parte do ouro queriam atravessar uma ponta do mar á outra ponta. - Onde fica a casa do ourives? Perguntou Vagos o pirata aos dois ciganos. - Só vos dizemos se nos levarem de uma ponta do mar á outra. - E onde fica isso? - Queremos ir na direcção de outra vida, o ouro que conseguirmos é para mandar á família e pagar a um padre a absolvição dos nossos crimes. - Podem lava-los na água, por aqui há muita e é tão salgada como as nossas vidas riu-se ele. Estava a pensar agora como é que eu sei que essa vossa história não é invenção? - Se não tendes confiança na nossa palavra... - Sois ciganos - E vós sois piratas, vos saqueais as coisas do mar. No bosque continuava a viver a jovem rapariga que tinha feito um juramento de vingança, agora odiava tanto, como tinha amado o velho artesão e a velha raposa que sabia a arte da metamorfose, agora ela que conhecia tão bem aquele bosque tinha um plano para liquidar toda a tropa de caçadores do reino e roubar todos os cobradores de impostos cujo caminho fosse aquele. - E qual era o plano dela perguntou uma miúda? - A jovem pensou preparar um perfume cujos ingredientes eram extraídos de um cacto que existia em volta do buraco fundo onde ela continuava a dormir. Enquanto apanhava umas bagas que eram parte do tal cactos, pediu à águia que a alertasse caso aparecesse algum intruso. Ela queria que aquela operação fosse secreta. Ela ia criar o perfume da sedução fatal, depois espalharia o mesmo nas roupas dos soldados dos reis quando andasse a passear pelas feiras. O cheiro daquele perfume a que ela seria imune atrairia quem o cheirasse para o cimo de uma torre onde se atirariam convencidos que se tinham tornado imortais, outros caminhariam na direcção dos poços e convencidos que Deus em pessoa os baptizava se afogariam nas profundas águas. Levou ela mais de dez anos na apurada escolha dos bagos e outros dez na preparação do tal perfume. Logo que o perfume estava pronto a ser usado ela lançou um assobio frio e logo apareceu o seu cavalo selvagem. Partiu ela ainda muito cedo e a dado momento aparecendo dos ramos altos de uma árvore saltou uma figura uma parte era o desenho de um humano em forma de fogo, um fogo de paixão que ao envolve-la a cegou. - Quem és tu? Que me fizeste?! - Sou aquele que é parte da tua escuridão e sou a parte da luz que tens em ti. A vingança perde as criaturas. - E ela ficou muito tempo sem ver? - Quando fechou os olhos e imaginou que olhava o coração, o que há de mais verdadeiro, os olhos dela abriram-se. Abriram-se os olhos e os braços respondeu o patriarca. - E depois ela apaixonou-se outra vez? - Depois ela assumiu a forma do espaço em volta e quando deu conta, já não era mulher, nem animal, a sua metamorfose era ter conseguido ficar noite. - Olhem as estrelas gritou um miúdo! - Parecem o ouro que os piratas desejavam. - E agora a floresta ficou sozinha pergunta Mariana? - Ela continuava a proteger aquele lugar e quando havia a intenção de destruir aquele sítio os que tentavam ficavam cegos e não conseguiam descobrir o caminho. Anos mais tarde o rei que governava aquela terra foi derrubado e o povo elegeu um cavaleiro cuja espada era afiada de justiça. - E os piratas? Perguntaram todos. - Os piratas ainda navegam, crentes que vão na direcção da casa do ourives que fica situada na mentira dos rapazes ciganos. Na verdade é a loucura que os faz seguir, a loucura e a cobiça e será isso que os irá perder. lobo Noite tenho a boca a sangrar Noite, olha! Tenho a boca a sangrar O álcool cheira como as flores enterradas no mar e os meus gritos e os meus sonhos e os meus gestos no lume Ficam guardados na tristeza dos que foram na guerra e depois voltam com canções para me consolar. Noite tenho a boca a sangrar andei numa briga por ti e os meus gritos e os meus sonhos e quando tento e não durmo é porque a minha alma perdeu o poder de se declarar. Noite, tenho a boca a sangrar os meus gritos os meus sonhos. O álcool cheira como as flores enterradas no mar. Lobo 010

publicado por relogiodesacertado às 18:31
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Quinta-feira, 31 de Março de 2011

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A cidade tem os olhos das pessoas

A cidade está fria, a cidade tem os olhos das pessoas e os olhos das pessoas são bonitos e frios, como é bonito e frio o rio que vai nas ruas, que vai nas casas, que cheira nos esgotos. A cidade está fria e está doce, os olhos das pessoas estão abertos para que neles entre o vento da guerra e aquela força que se divide para que não se quebre o mais frágil amor.
A cidade tem os olhos das pessoas, na primavera todos os crimes de sangue cheiram como as flores e nós escrevemos longas cartas nas pétalas dessas mesmas flores. A cidade tem os olhos das pessoas, as palavras que a ausência guarda é nos teus olhos fechados o rio profundo. A cidade está fria, a cidade tem os olhos das pessoas, tem a água que esconde a sede e empurra os navios. E é indefinido todo este pensamento que não sabemos se o mesmo serve para alcançar estrelas. A cidade está fria, a cidade tem os olhos das pessoas e perguntamos como a cidade imagina os olhos das pessoas?! E julgamos que é preciso ser infeliz para imaginar sem limites. A cidade tem os olhos das pessoas, a cidade a fugir dos olhos das pessoas é o rio que se corta nas navalhas como um infiel. O rio são os olhos das pessoas, que é a água da cidade, o suor dos que trabalham ou o inútil cansaço dos que se querem sem desejo e sem convicção. A maior convicção da vida é morrer e morrer é tentar viver tudo de novo. Ser inconstante é uma rara virtude. A cidade está fria, há um fogo á volta, fios de arame para esculpir pássaros e tu és forte e isso não serve de nada á força do rio agarrado ao teu corpo magro. É por seres triste que a poesia é sublime, mas todas as frases nos enganam, não vamos chorar as palavras que morrem afogadas. A nossa pátria é uma piscina de palavras afogadas, a nossa pátria é uma coisa pequenina e muito grande no entanto quando cada homem não sabe o firmamento que é enquanto dorme. A cidade está fria, a cidade tem os olhos das pessoas, a água do rio não tem mistério, o mistério não é necessário, basta que os frutos sejam doces e os olhos sejam limpos. A cidade está fria, tão fria como o rio , fria como um crime. Ainda bem que há sangue a pingar nas roupas dos estendais. A cidade está fria, o pão tem bolor e hoje os teus olhos não estão nem mais nem menos nítidos que uma fotografia.

Lobo 010

 

Há um poema atracado nas palavras

Agora o sol queima-me os olhos

e a tristeza anda dentro das flores e eu ando contigo

pelo infinito das ruas escutando as velhas canções dos cantores

da geração pop.

 

Agora as minhas mãos seguem as primeiras chuvas. Quando estalo os dedos há a magia

dos olhos de quem nasce. Agora o sol queima-me os olhos e há um navio atracado no meu peito

como um poema atracado nas palavras.

 

Lobo 011

 

Se o copo tem veneno

Se o copo tem veneno

não vá beber.

A barata tonta foi adormecer

na algibeira do comerciante.

Há quem tenha mais

há quem fique com menos

e feitas as contas quem nos garante

que o erro da conta

ou é da barata tonta

ou do comerciante.

Lobo 011

 

Não posso ficar triste

Não posso ficar triste

porque a tristeza me mata

mas guardo uma poesia

se sentir que tenho falta

da tua companhia.

 

Não posso ficar triste

porque a tristeza é como o frio

e se a tristeza mata

mata mais este vazio

sentir que me fazes falta.

 

Não posso ficar triste

porque a vida me deixa

mas guardo uma poesia

uma lágrima sem queixa

se me falta companhia.

 

Lobo 011

 

Vem o rei

Vem o rei

que estava escondido

governar o país

no guarda vestidos.

 

Tem meias compridas

grossas e de lã

governa a vida

no colo da mamã.

 

Ainda é rebento

e já vai combater

matar um cento

no país cinzento.

 

Este menino

o Sebastião

teve o pobre destino

de ser mensageiro

da nossa nação.

 

Lobo 0

 

Menino Jesus vamos jogar ao monopólio

 

Tu estás no cume da montanha, cães e gatos jogam ao poker. O mundo é um teatro perfeito e se tudo isto não fosse uma cómica falsificação que dolorosa existência seria a nossa, que pobre vidinha esta sem dias de comemoração, sem vinho a escorrer na garganta, sem discursos indecifráveis. Estás no cume da montanha, trazes contigo o telefone portátil, a ilusão mudou de cosmética. Hoje é natal, cães e gatos desistem do poker.
- Menino Jesus! Vamos jogar ao monopólio...

Lobo 010

 

Que espécie de fogo desvendam os teus olhos?

 

Que espécie de fogo
desvendam os teus olhos?

Ler nos olhos já não é um prodígio.

É possível que certa espécie de ave conheça o segredo e contudo confunda o fogo dos teus olhos com a sombra de alguém a segurar o mundo

Lobo

Não tenho força nem canções imortais

 

Não tenho força
nem canções imortais
a minha rua
mais deserta ficou
e o céu perdeu os sinais
de quem lutou e não tem ideais.

Não tenho força
mas há o clamor,
esta vontade erguida cá dentro,
levantar um pequeno sentimento
de quem á terra se entrega por amor.
Não tenho força
no entanto eu busco encontrar
uma razão se a palavra me falta,
semear na vontade este pão
pedir a coragem da tua canção

Ter coragem para seguir
o caminho ainda está por fazer,
abandonar e depois construir
perder a força
para a força sentir.

Não tenho força
mas há o clamor
esta vontade erguida cá dentro,
levantar um pequeno sentimento
que na vontade se faz universal.

Não tenho força
no entanto eu busco encontrar
uma razão se a palavra me falta
semear na vontade este pão
pedir a coragem da tua canção

Lobo 010

 

Perdi uma asa

 

Eu perdi uma asa

no tempo em que tinha medo

e quando á terra voltei

e quando voltei a casa

no corpo de homem acordei

muito cedo a este mundo.

Agora não sou mais Deus

não tenho asa de águia

tenho esta forma de homem

tenho esta forma de mágoa

 

Lobo 011

 

Ontem a chuva fotografou

 

Ontem a chuva fotografou um caixote de lixo e um vagabundo disfarçado de cão. Em Lisboa havia um momento de poesia e alguns nadas no prato da sobremesa. Quando encontrares esse pobre que procura o céu azul nas folhas da musica que ele saiba que o vento se aproxima como um comboio.

Ontem a chuva fotografou uma cena de amor, havia uma cama na rua, era o cenário de um teatro, um pássaro em cima de um chapéu.

 

Lobo 011

A fragilidade do mundo

 

Velho que desce a fragilidade do mundo. O mundo são ruas com janelas, com gelo nos copos. A loiça, os cães, os gatos, a ortografia do ferro a ornamentar este postal da cidade.

Lobo 09 Maio

 

Não era milagre andar sobre as águas

 

Não era milagre andar sobre as águas
A navegação dos dedos na espuma do piano. É cedo para morrer e tarde para ver a boca entoar a noite.
A navegação dos dedos na tempestade dos olhos, nesses olhos aguçados na carne das nuvens.
A navegação dos pés seguindo o fumo.
Andava sobre o fumo e agora já não era milagre andar sobre a água. Esse que andava sobre a água era um índio que comia a escura terra e fumava na taberna dos Deuses.
Na verdade eram homens velhos, mais velhos que os Deuses.
A navegação dos dedos na espuma do piano.
Lentamente nos dedos a fazer-me adormecer a fazer-me sangrar

Lobo 05

o entendimento completo da morte.

 

Fico suspenso na água
a noite cheira a rosas e o milagre da pobreza
é deixar cair o incógnito perfume dos olhos.

Suspenso na água e de patas penduradas no hemisfério

tento refazer o mundo. É este o sinal para accionar as transformações do corpo.

Suspenso na água vejo os meus olhos
e não são os olhos que vejo
mas a água.

Não ter segredos é simples
o mistério de morrer é esperar e entre o mistério do que se espera
e o inesperado de não se saber onde ficaram os olhos nós tentamos e o tentar é a imperfeita conjugação de pensar que qualquer coisa é a sensação particular das coisas comuns.

Não ter rotina é morrer as coisas comuns fazem falta á paixão.

Fico suspenso na água e de pernas para o ar imagino-me um poeta que recita uma canção na sola dos sapatos velhos. Aquele barulho, aquele andar da multidão que parece que mexe, que parece que anda e que muda de posição quando parece estar a despir a terra e a terra fica nos sapatos como a música nos dedos ou simplesmente como a respiração que se vai do corpo.

Fico suspenso na água
a noite cheira a rosas bravas
existir é ter cuidado e ter cuidado é desfolhar o amor e não ter cuidado é a única atenção que o amor precisa para se equilibrar pois nunca se sabe como os homens se equilibram e contudo sabemos que encontram uma certa firmeza.

Assim o mar
assim o amor e todas as coisas misturadas.

Os homens livres e os outros e as mulheres para que não se diga que falta uma cor.

E é sempre a natureza esse milagre
essa transformação do cisne feio
no amor verdadeiramente universal e poderoso.

Não há nada que o amor não faça

para espantar os homens comuns e esse é o milagre do amor e isso é não entender nada e ter no entanto uma qualquer admiração que fosse o entendimento completo da morte.

Lobo

 

Agora é a água dentro dele que canta

 

A lua vi eu
desceu pela garganta
e no peito do homem rude adormeceu.

Agora é a água dentro dele que canta. As raízes são sílabas que a terra bebe
como uma viagem pelos olhos.

Esse livro que dentro dele a paisagem escreve.

Lobo 010

 

Vais começar a voar

 

Vais começar a voar. Na margem do rio inicias-te o exercício do voar. Voar não é apenas um dom, é uma forma de educação, de conhecimento espiritual. Nós guardamos este conhecimento nos sonhos. Anjos e pássaros voam, além destes as máquinas e o peso não é uma desculpa para não se voar. Nós não voamos porque o peso nos prende á terra, nós criámos raizes , voar é uma capacidade, não é por si uma coisa importante. Sentir os pés no chão, o calor e o frio, ter a sensação da energia a fluir sem ficar preso ou dependente deixa-nos espaço e liberdade para decidir e para transformar. Foste até ao jardim de Gautama , com o matemático aprendeste as formulas matemáticas , com o agricultor as épocas de cultivo e com o teu silencio interior a escutar a chuva e a meditar. Meditar com as folhas de ch á o teu corpo e a tua mente flutuam na á gua, os cheiros dos frutos e das ervas entram em ti enquanto ficas ocupada a espalhar o fumo na sala onde era costume o buda repousar ou simplesmente ficar no estado de não existência. Preparas o chá o vento bebe-o, a terra também absorve gota a gota o fogo e a á gua do ch á
No jardim de Gautama há uma erva, no mercado da aldeia há um homem que vende dessa erva. Antes de fazeres o exercício da arte do voar tu respiras os seus vapores, ficas imóvel e vês o Gautama a caminhar para ti.
Tu não queres fazer a conversa comum mas a conversa comum, o rio que corre, o sol que brilha, a nuvem que passa, a criança que nasce, a vida a morte. Gautama vai sorrir e os olhos abertos dele vão saudar os teus.
- Bom dia
- Está a chover.
A água e a terra são irmãs.
- Venerável gautama pensas que com a água e a terra posso aprender a formula do voar?
- A capacidade de voar est á em ti, es tu. Voar é reter a natureza nos olhos, é ficar com ela é ir alem dela, é ficar sem exigir nada.
- Hoje estive no mercado, andava por lá um comerciante de chás quando era criança gostava de olhar a cor das folhas e a cor amarela da á gua do ch á recordava-me o rio amarelo e as suas histórias e canções. gostava de adormecer com a cabeça deitada nos seixos e de ouvir o meu irmão mais velho a recitar os mantras enquanto chapinhava nas poças. A água a saltar era o sorriso dele a molhar-me os pés.
- Sabes! A á gua cristalina ó sorriso do Buda das cinco ervas.
- E quem é o Buda das cinco ervas?!

- O Buda das cinco ervas é o comerciante que viste no mercado.
- Mas buda não tem o caminho do negócio.
- Os nomes das coisas são só o nome das coisas, buda tem o caminho da abundância , do negócio prospero do coração, não h á o bom e o mau fruto, nem a boa e a m á árvore, h á o fruto que o teu sabor precisa, h á a á rvore que espera o viajante, o peregrino, o pastor, o negociante, o generoso e o avarento.- Vou preparar um chá- Faz um chá de folha de figueira, tritura bem as folhas, estas devem ficar pequenas como as gotas de chuva, depois fazemos a oração do chá e lemos os salmos do Buda das cinco ervas.- Vou ferver a á gua, olhar a nuvem que se desprende do vapor, talvez apareça no ar o génio do chá dos desejos.
Enquanto preparavas o chá Gautama adormeceu, durante a sua viagem ao inconsciente da natureza ele viu o génio do chá dos desejos. O génio do chá dos desejos tinha as duas partes da natureza. Gautama foi recebido por ele. Na gruta onde morava o génio havia uma mesa e sobre ela um bule de chá. O génio ofereceu ao senhor Gautama o chá do enlouquecer. Gautama sentou-se no chão, segurou uma pequena taça dourada e sorveu de um gole todo o chá depois sorriu, estendeu as mãos ao céu, alcançou uma estrela e pô-la na á gua do chá
Ele viu a noite e os planetas, não sentiu medo nem viu monstros ou com o seu olhar transformou essas criaturas em ilusão. O génio olhou Gautama , depois desapareceu, logo apareceu no monte sagrado e venerou toda a linhagem dos budas, das árvores, dos pássaros s dos homens de todas as cores, de todas as sabedorias e ignorâncias.

Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco irís que passava das mãos aos olhos.
Moonli continua a exercitar-se no oficio do voar. Moonli é o teu nome, na lingua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia musica, a musica também é um exercício que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possível voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a música entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memoria que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluído na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As petalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espirito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espírito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos.- Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos.- Vem deitar-te comigo- Estou cansado, o meu espirito viajou como a lua cheia que segue as nuvens.- Sabes ler as mensagens das nuvens?- É como ler as palavras da água.- Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualisam as lágrimas do precioso. A terra será fertil e os frutos abundantes.- O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espirito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azafama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raizes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão. Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o polen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a tecnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com origem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporárias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele Chamo-me Levi.- Chamo-me cabelos compridos Não és um peregrino Sim, também sou um caminhante Que procuras Procuro o grande Mar. Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá?- Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência. Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco-íris que passava das mãos aos olhos.
Moonli continua a exercitar-se no ofício do voar. Moonli é o teu nome, na língua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. Quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia música, a musica também é um exercício que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possível voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a musica entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memória que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluído na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As pétalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espírito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espírito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos Vem deitar-te comigo Estou cansado, o meu espírito viajou como a lua cheia que segue as nuvens Sabes ler as mensagens das nuvens É como ler as palavras da água Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualizam as lágrimas do precioso. A terra será fértil e os frutos abundantes O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espírito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azáfama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raízes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta-essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão. Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o pólen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a técnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com origem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporárias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele Chamo-me Levi.- Chamo-me cabelos compridos Não és um peregrino Sim, também sou um caminhante Que procuras Procuro o grande Mar. Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência Vamo-nos encontrar?
- Em breve.
cabelos compridos chegou de noite á pequena aldeia de patcha- luna. A casa do velho Gatso era forrada com argila e o telhado coberto de palha. Gatso o pescador estava á porta de casa consertando a sua velha rede de pesca. Cabelos compridos aproximou-se dele
- Venho da parte do jovem Levi.
- Falas-te com ele?
- Falámos telepaticamente.
- Que me queres?!
- Aprender a arte da pesca.
- Tens de treinar a paciência.
- Podes ensinar-me...
- O próprio mar te vai ensinar, a floresta, a montanha, o dia e a noite tem muito para te ensinar.
- E tu?
- Eu estou velho, a única mestra que me pode ensinar é a morte.
- Aprendemos todos com ela sobre o renascer.
- Vejo que estás cansado e com fome, em cima da mesa há uma tigela com caldo de peixe.
- Vou comer um pouco e deitar-me.
Cabelos compridos foi acordado pelo ruído do vento. O mar estava eriçado, parece que tinha a fúria dos homens em guerra, parecia que tinha dentro dele um coração a bater acelerado. Cabelos compridos passou algum tempo observando o velho Gatso construindo e consertando as redes. A primeira aprendizagem foi o treino dos olhos, os olhos e a mente treinados no ofício da atenção. Cabelos compridos tinha de conhecer o mar, conhecer-se a ele próprio, o seu conflito interior era sentir-se dividido não obstante ser a parte e ser o todo. Cabelos compridos e o velho Gatso partiram numa manhã que era o dia do aniversário do Buda shakamuni o senhor das forças. Foram muitos meses de mar, meses de tentar não lembrar aqueles que deixamos em terra. O mar testava os nossos apegos, a nossa resistência. Em forma de doença a morte se escondeu no corpo de cabelos compridos. Cabelos compridos parecia que tinha mil demónios dentro dele. O velho Gatso entoo o mantra da levitação e com o poder vibratório desse mantra flutuou sobre a espuma e sobre as mãos invisíveis do Sr. shakamuni aquele que conhece a profundidade e a escuridão, a luz e a superfície. Durante quarenta dias cabelos compridos ficou cego. A sua cegueira foram os seus desejos os seus pensamentos de luxúria. Esses pensamentos não eram sua essência. Maya a senhora da ilusão era a sua mestra. Na natureza tudo pode ser o nosso mestre. A flor que desabrocha e o raio que fulmina.
O velho Gatso pousou sobre a sombra de cabelos compridos, uma sombra escura, fatalmente escura deu lugar a um foco amplo de luz.
- A febre baixou
- Que me aconteceu?
- Entras-te no reino dos demónios.
- Quem me salvou?
- Ninguém, tu próprio sais-te da escuridão, quanto mais te dividias mais nas trevas penetravas. Quando tomas-te consciência que a causa da tua ignorância, que a causa do teu medo estava em ti reconciliaste-te com os teus demónios e eles converteram-se no Deus supremo que há em ti.
- Mas disseste que entrei no reino das trevas...
- Os medos que a tua mente guarda são uma porta que recebe todos os lixos, o medo é uma porta que se fecha, quando abres essa porta esse lixo sai. Através de ti aprendo a arte do yoga.
- Aprendes comigo a arte do yoga?
- É verdade.
- Como pudeste aprender com o meu medo, com a minha insegurança.
- Com a divisão descobre-se  a unidade, com o medo a ter-se cuidado e com a incerteza a reflexão.
- Mas...
Tu não vences os teus medos se lutas com eles, essa é uma luta inútil. Tu aceitaste-os, tu transcendeste-os.
- Penso que o mar me lê o pensamento, ele sabe que não há tempestade em mim.
- Ele aceita a tua fúria, a tua calma. Tu foste guiado até mim para que eu pudesse partir.
- Aonde vais?
- Vou deixar o meu corpo
- Vais morrer?
- Como as lágrimas saiem dos olhos o espírito sai do corpo.
- E quando é que isso vai acontecer?
- Quando me esqueceres. A morte chega quando nos esquecemos de alguém.
- Não me consigo esquecer de ti.
- O que a tua mente esquece o teu coração guarda.

Numa noite de profundo silêncio em que ele cabelos compridos estava calado como se não houvesse dentro dele pensamentos e dentro dele fosse uma folha a flutuar e a subir até desaparecer do horizonte, o velho Gatso deixou o corpo. Agora tens de esquecer, qualquer recordação é um íman que puxa as almas ao mundo dos desejos, ao mundo fisico dos apegos e das paixões. Cada ser tem de seguir o seu caminho, fazer a sua vontade. Acende um pau de incenso, depois lança o corpo dele ao mar. loboPara que serve a alta velocidade

 

 

 

Para que serve a alta velocidade?!

 De que serve ultrapassar a paisagem se depois não fica mais nada . Não fica cheiro, não fica paladar, mas fica uma certeza, vivemos mais tempo com menos coisas para realizar. Fazemos filhos e não realizamos o amor, comemos livros em vez de os lermos.
E de que serve a alta velocidade da vida se a morte chegará para conclusão de que nada fizemos a não ser perder a vida que nos faz mais "ricos" e menos verdadeiros e menos felizes sempre que a deixarmos de sonhar. As maquinas também mexem assim como os olhos sempre fechados e inúteis. Um negocio, a subtil ilusão de que o mundo está a mudar

Lobo 010

Passava os dias a ver os malmequeres

 

Passava os dias a ver os malmequeres, isso foi antes, agora há prédios perfilados, cães a vomitar e uma caixa de remédios onde cabe uma mini bíblia. Ainda não há uma vacina contra a evangelização. Agora não se lêem versos com a mesma entoação com que se liam na adolescência. No lugar dos malmequeres há uma igreja multibanco. "por favor introduza o seu numero de crucificação. Lamentamos mas o seu saldo não lhe permite efectuar pecados mortais. Passava os dias a ver os malmequeres, antes qualquer um que ficasse a ver passar os comboios era poeta. Bem-aventurados os parvos porque nunca serão enganados. Passava os dias, passa os dias enquanto o mundo se perde em devaneios e em vaidades

Lobo 010

 

Alice ainda está a dormir

 

Alice ainda está a dormir. Há um livro caído no chão onde está situada a farmácia de serviço, os livros na adolescência tem o mesmo efeito das rodelas psicadélicas, Gostava das rodelas de formato laranja, uma vez deixei cair uma dessas rodelas nas escadas do prédio velho onde vivo, depois o rato que anda pela estante dos livros velhos comeu a tal rodela, há quem se pense Napoleão ou S Francisco de Assis. O rato da estante julgavas se queijo parmesão, entretanto Alice ainda está a dormir, ao lado há um pequeno mapa dobrado, há manchas de vómito na península ibérica. Alice está do outro lado, se fosse possível ler-lhe o pensamento, pensaria ela num velho teatro vitoriano a comportar-se como uma rapariga de casa de alterne que lança o soutien na direcção dos projectores
Na farmácia de serviço há um velho a tocar gaita de beiços, tenho o som do rio em mim, por causa da minha crónica timidez é o rio que faz a declaração de amor á pequena Alice. O rio fica calmo, não quer acordar a criança, essa criança casta e apetitosa de vícios escondidos a despertar a poesia nos homens que tem a alma "suja" ou simplesmente as fantasias convertidas em culpa, o nosso Senhor Jesus Cristo deu o corpo ao manifesto pelas nossas fantasias, Alice parece uma Madalena, pego num pequeno estojo de cosmética e pinto-lhe os lábios, o roxo fica-lhe bem. Todas as mulheres são belas a dormir, tiro do maço um cigarro, com o fumo desenho peixes e vultos eróticos, parece que aquelas formas saiem dos olhos fechados de Alice, toco o seu corpo e sinto que nele se inventa uma nova maresia, debaixo da porta do quarto há um envelope, dentro metade de uma fita métrica, o chapeleiro louco mudou de emprego, agora é o alfaiate paranóico, as suas roupas cheiram a pão bolorento, o inverno demora a passar e Alice ainda dorme, o ritmo do seu coração é a marcha dos soldados da rainha das lingeries triumph, vou preparar um chá de ervas, o vapor do chá como o da chaminé dos barcos que navegam nos olhos, nunca disse a ninguém que pela casa anda um travesti fantasma, também se chama Alice, gosta de comer bolachas ou costuma com as bolachas fazer o lançamento do disco. Em breve realizasse o campeonato de futebol dos vultos com pé de atleta, não sei se Alice gosta de futebol, não sei quando vai acordar, sei que o alfaiate paranóico vai desenhar o equipamento dos vultos do futebol que jogam nas paredes, já vi um jogo nas paredes de um WC, o publico a pegar em frases como quem pega em tomates e a lançar na cara dos tais vultos. ( liga-me no intervalo) o teu corpinho sabe bem, sabe a peixe no forno e a flores nos cornos dos touros, os cornos dos touros lembram a selvagem poesia Espanhola. Alice nunca leu Lorca, talvez o encontre nas viagens do seu dormir. Entretanto saio, vou jogar bilhar, as andorinhas inspiram-me, gostava de imaginar uma pergunta para Alice: - Quando acordares que vestido vais escolher? Sabes que o alfaiate paranóico vive num guarda vestidos, é um t2, uma renda antiga dessas que ainda se praticam em Lisboa, o alfaiate paranóico agora deu-lhe para rezar o terço, no bolso de um casaco velho há uma folha rasgada a meio, é uma receita com a fórmula do queijo parmesão, com os fios do queijo parmesão ele fez umas calças para o conde da braguilha aberta um personagem asqueroso, muito estimado pelos cães e presidentes de câmara ou até candidatos ás eleições para o parlamento, Alice ainda não mexe uma pálpebra. Alguém sabe porque está a dormir tanto tempo?! se eu telefonar para a brigada dos ratos da desintoxicação, espero que não seja tarde de mais, são dez horas da noite, na cozinha da casa de Alice a chaleira do chá está a ferver, finalmente Alice começa a acordar, as suas primeiras palavras são: - Traz-me um espelho, quero embaciar o espelho, lábios desenhados, uns lábios que parecem carnudos como saídos da boca da loira Marlene a velha actriz que vivia com um cineasta alemão, Alice afina a voz, está a preparar-se para ir á ópera, Pavaroti usa uma gravata feita com fios feitos de queijo parmesão, os sapatos de Alice cheiram aquele odor, o chule fonte de inspiração surrealista, o pequeno almoço do conde da braguilha aberta são meias descosidas, estendal do prédio uma colecção de meias sintéticas, o conde tem vagas noções de nutrição... Alice parece que anda num mundo paralelo, enquanto ela andou a vaguear a mãe dela tentou ligar-lhe várias vezes, ligou para uma clínica privada e foi disfarçada de sem abrigo ao casal ventoso saber se a sua Alice estava a consumir? Alice estava no seu quarto secreto, foi levada da via latina até ao velho quarto por um velho xamã, quando não era um velho xamã era um carteiro, uma pessoa igual a todas as outras e por outro lado um super dotado da mentira, Alice por ele quebrava todos os vidros, a maior mentira dele foi a maior verdade que flutua em muitos lábios, ela ser o amor da sua vida, mas a mentira dele pareceu soar como a voz da rainha de copas - cortem-lhe a cabeça! Alice olha uma revista cor-de-rosa, se ainda estivesse naquele seu sono profundo pediria ela ao alfaiate paranóico que lhe fizesse um daqueles vestidos o mais transparente possível, por favor Alice, a transparência é útil, mas é uma coisa exagerada, sabes como é, sabe sempre ao mesmo, é fútil a ilusão das actrizes de folhetim, descascar cenouras com o coelho de Março seria muito melhor. O xamã o super dotado da mentira que dava de dez a zero ao belzebu das tretas alcunha dada ao traficante cigano que andava pelo casal ventoso e que rondava os infantários oferecendo histórias de desencantar, histórias que pareciam verdadeiras mas que no fundo não tinham fundo nenhum. Alice alimentava a sua existência destes personagens, as pessoas estáveis bem posicionadas socialmente que só enganam o próprio ego, só tem dentro delas uma luz e presença e não fazem mais nada do que exibir a riqueza que um dia será pó, ou que é ainda poeira. Os outros, os que roubam, os que enganam, os que inventam sonhos e traficam prazeres não são diferentes, trazer um laço no colarinho não faz de um monstro uma flor. Alice se enamorava dos amantes do perigo , o tempo em que ficou a dormir e em que tomou as rodelas laranja encontrou no castelo da rainha a laranjeira que alucinava, era o pôr de sol que injectava os seus raios nas raízes da árvore, o comerciante indiano o que tem uma loja de plásticos vendia copos de laranjada injectadas de pôr de sol, o processo de fabrico era besuntar as costas de um lagarto com sumo de laranja e depois deita-lo ao sol e com o suor produzido por ele misturar no sumo de laranja.

 Lobo

 

 

 

O cheiro do estrume nas flores

 

Muitos poemas já foram escritos, o mar deve ter recebido nas suas águas aquelas declarações de amor que quase todos os poemas falam e muitas das palavras que ficam por dizer, o mar sabe que isso é o que se costuma designar por paixão. Os homens tem diferentes ideias sobre a paixão, a paixão tanto dá vida, como faz alguém desejar a morte. O mar pensa que a paixão faz a tempestade no peito dos humanos, por uma vez, por um momento único e definitivo o homem da rua esse homem bruto, vincado nas carnes com os golpes da máquina onde se repete, onde faz o sorriso forçado, onde inventa um poema tão conseguido como o primeiro filho que vem ao mundo. Ele o homem comum escreveu o seu poema, foi numa noite de verão. Não importa muito isso, o homem acendeu a luz, cheirava muito a suor, mas não importa muito isso, quando a paixão é grande qualquer cheiro que para nós é nauseabundo para eles imaginamos nós que seja o cheiro do estrume nas flores. Alguém que nunca tenha escrito de um modo organizado, como uma vocação. Com uma natureza que o defina como um poeta, descobre certamente que o sabor de uma comida, de um corpo, da água e da erva é superior a todas as palavras.

lobo
05

Homem e mulher estão olhos nos olhos.

 

Homem e mulher estão olhos nos olhos. Homem - Está frio no entanto apetece a rua. Mulher - Se a noite chegasse á porta... se te suplicasse abrigo.- Homem Ela não vem deitar-se connosco, não ocupa o lugar dos nossos sonhos, não se enerva com a nossa ansiedade. Mulher - Até quando me beijas a boca tens que pronunciar essas recordações. Homem - Que recordações?! Mulher - Os dias nucleares. Homem - Isso não é comigo. Mulher - Que pão comes que na tua boca já não tem gosto. - Homem Os anos na prisão fizeram-me esquecer o cheiro, não cheiro para não me seduzir. Mulher - E o meu corpo a que cheira? Homem A quente. Mulher - A quente?! Homem A café e a cocaína. Mulher - Essa mistura faz enlouquecer.
Homem - A prisão é como um casamento, esperamos e de repente estamos amordaçados a uma cama, a um trabalho, depois cometemos um crime e somos apanhados.
Mulher - Apanhados!
Homem - Fizemos um pacto. A boa aparência dos nossos filhos para esconder todos os fracassos.
Mulher - E o amor?!
Homem - É sujo e útil como um pedaço de lama.
Mulher - Nós sangramos no amor
Homem - Também sangramos antes da morte.
Mulher - É uma coisa doce.
Homem - É estúpido
Mulher - Tentar compreender faz-nos mal.
Homem - Dá-me as mãos! Tens os dedos ásperos.
Mulher - É de jogar póquer. Um dia enquanto jogava a polícia encontrou um corpo inerte no rio.
Homem - Era um traficante de mulheres
Mulher - era.
Homem - Somos todos grandes traficantes, traficamos o sujo para que pareça limpo, da mesma maneira rezamos, como pagamos os impostos.
Mulher - Acreditas no inferno.
Homem - Se poder ficar a olhar um corpo assim desenhado
Mulher - Queres foder-me
Homem - Gostava de penetrar-te
Mulher - És indecente.
Homem - A lei está acima da moral, as nossas mães, as nossas irmãs, os patrões sustentam a boa aparência.
Mulher - Não acreditas na justiça.
Homem - A justiça é uma pedra que não fica á superfície.
Mulher - Nenhuma pedra fica á superfície. O meu amante, os meus filhos, só a solidão foi enterrada com o meu corpo, um dia em que eu me recordava muito velha, em que eu era muito feia e me sentia muito puta.
Homem - Esse teu ar fatal fica a condizer com o fumo afrodisíaco do churrasco.
Mulher - O clic da kodak e toda a família a ejacular sorrisos.
Homem - O patrão a ejacular cinismo para o focinho do sindicato.
Mulher - De que lado estás?
Homem - Que nos faz a escassez do pão, que culpa temos de não conseguir-mos aprender os exemplos desta escola. Temos que ser bons militares, os bons militares tem cabelo curto, não se metem na droga nem tem piolhos. Os militares e os políticos são a merda mais limpa do cu, não esquecendo os Juízes.
Mulher - Vou mudar a música.
Homem - Vou para casa
Mulher - Queres pão?
Homem - Não quero nada, vou dormir, não mais terei pesadelos, acordarei novo como um papel branco, assobiarei ao vento em tom de desafio, vou chamar-lhe de cavalo. A puta da vida vem a galope, as igrejas estão cheias e os teatros completamente vazios, o teatro deve ser nas igrejas.
Mulher - Estás a delirar,
Homem - Vou dormir antes que resolva morrer.

Lobo

Em Lisboa não há água

 

Em Lisboa não há água. Durante a viagem vemos os soldados, os olhos são magros. Nos passeios desfilam monges, sofrem do mal da tuberculose. Lisboa veste a roupa do rio, durante a viagem encontramos uma multidão de homens nus, despidos como o vinho que se despe das garrafas como uma solidão que se expulsa do corpo. Sentimos o cheiro podre das flores, os retratos de um amarelo velho nos quartos vazios onde a demolição e a agonia se espalha como um hino inaudível. Há fome nas ruas, as vozes não cantam porque estão fracas, as crianças não brincam porque no céu não se vislumbra uma só nuvem, um sinal, um ritmo que apele á descoberta do corpo, o mistério da compreensão da morte através da representação cómica da vida.
Em Lisboa não há água, alguém filma esta incompreensão, não há uma árvore, não se vê uma janela onde entre ar e saia um grito...

Lobo 010

 

Estou aqui para te pedir a noite

 

Estou aqui para te pedir a noite
ou um barco para navegar. Não sei onde fica o horizonte dos teus olhos, não sei se vamos juntos nas ruas onde íamos antes inventando fogo depois de cada sobressalto. Estou aqui para te pedir a noite ou um traço de luz que me feche o peito. Escrevo-te esta carta aqui nesta ilha onde o vento forte escreve no rosto a ortografia cicatrizante dos dias. Estou aqui para te pedir a noite...

Lobo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 19 de Junho de 2007

...

Nós atravessamos para o outro lado. Somos loucos, estamos cansados. Não encontramos a poesia, o sentido do Deus triste, do cão abandonado à piedade dos padres e dos militares.
A rapariga entrou no quarto, havia uma lua que diminuía de tamanho, junto com ela entrou um homem gordo e imbecil. Os dois adjectivos n ão tem a mesma conotação. Aquele quarto faz parte de um pr édio onde funciona uma agência de pornografia. Toca o telefone.
- Boa tarde. Se fazemos filmes pornogr á ficos com insectos?! Pensamos que n ão são comercialmente rent á veis . Sim pode c á vir pessoalmente mas de qualquer das formas acho que n ão vamos fazer negócio. O homem poisou o auscultador, entretanto ouve-se o som de roupas a cair no chão como gotas de á gua . A mulher vira-se de costas, tem um rabo-branco e redondo como a lua, o homem penetra-a e vai empurrando com violência o seu duro membro, ela parece uma loba a uivar à lua. Ele agarra-lhe pelos cabelos, ela começa a rezar à virgem, o homem bate-lhe com força naquelas brancas nas n á degas , o seu grosso pénis vai deslizando como o arco de um violino.
São duas horas da tarde cada vez é mais ensurdecedor o barulho dos autom veis . O homem chama-se Carlos, foi durante muitos anos agente de seguros, costumava levar revistas porno escondidas nas apólices. Foi despedido por ter assediado um grupo de freiras que passavam em excursão. Depois dedicou-se ao comercio de selos eróticos. Certa manhã estava sentado na esplanada que dava para o rio. Tomava o seu café e passava os olhos pelo jornal quando uma mosca poisou no rectângulo de um anúncio. " Precisa-se homem viril para contracenar com rainha porno" depois fechou o jornal, abotoo
O sobretudo e recordou quando era pequeno e vivia numa pequena aldeia, lembrava-se dos aviões no céu e da sua primeira experiência homossexual. Aquela experiência ainda flutuava no pensamento. Carlos com estas recordações na bagagem da memória dirigiu-se ao escritório onde funcionava a agência referida no jornal. Sentado a uma secret á ria estava um homem que envergava um fato de macaco e usava um lenço como usam as mulheres da limpeza.
- Ol á
- Bom dia. Você vem por causa de um filme pornogr á fico com insectos?
- Não.
- Ainda bem, recebemos aqui cada telefonema! Você sabe... h á cada maluco que faz estremecer o céu.
- Venho responder ao anúncio.
- Quer um café?
- J á tomei.
- Vou tirar um para mim naquela m á quina. Sabe esta maquina geme enquanto o café cai no copo.
- Engraçado.
- O meu amigo quer trabalhar aqui
- Sim
- Preencha o formul á rio, os testes psicotécnicos e a entrevista com a psicóloga são importantes
- É preciso?
- A psicologia mexe com mundo, o mundo é um cu redondo. J á imaginou apalpar o cu do mundo?!
- Não.
- Gosto de met á foras...
Carlos ficou calado, instantes depois chegou uma mulher.
- É a nossa psicóloga disse homem do fato de macaco dando-lhe uma palmada no rabo.
- Venha disse ela – Vamos até ao quarto.
- Como é o teste?
- É um teste pr á tico .
- E do que trata
- Ejaculação precoce.
- Não costumo ter.
- Você tem uns olhos profundos.
- Você tem umas pernas esguias.
Ela começou a despi-lo, ia descendo as mãos da camisa ao fecho das calças, depois segurou-lhe o sexo e começou a serpentear com a língua, fazia movimentos lentos, a seguir começou a chupar, fazia-o com convicção. Carlos n ão se mexia. Dez minutos fora o tempo, depois o esperma caia como chuva na boca da psicóloga porno.
- Est á contratado.
Estou?!
- Sim, as filmagens começam amanhã
- A que horas?
- Por volta das 9 e 15.
- Quantas pessoas participam?
- Duas mulheres e três homens.

- Posso ver o argumento?

- Aqui tem uma cópia

- Tenho que fazer sexo com um homem?

- Se vier no argumento...

- Quem foi que escreveu?

- Acho que foi um tipo chamado Elton

- Quem é ele?

- Um coleccionador de chapéus.

- Se tiver de fazer sexo com um homem n ão quero.

 

De repente ela tira a sua longa cabeleira.

- Mas você é um homem

- Não gostou?

- Acho que o dia me correu mal, vou tomar uma á gua .

- Desculpe.

- Acho que vou ver o mar

- O mar por aqui n ão tem ninguém

 

Carlos seguiu até ao mar, o som das gaivotas parecia o som do sexo.

 

Carlos olhou o mar. Nu e de pénis erecto o penetraria. A á gua estava gelada, quando chega-se a casa telefonaria á ex mulher, marcaria um café, n ão falariam de assuntos privados, de coisas do genero : que fazes? como ganhas dinheiro, ou que sentido queres para a tua vida. iam falar apenas do sol e da poesia que enche de vigor os quartos e os jardins, iam falar da importância do momento, que estavam vivos para sentir tudo.

Na rua as luzes das vitrinas continuavam a piscar. Aquela rua parecia o paraiso mais obsceno de todos. Naquele momento um carro da policia fazia a habitual ronda, mais á frente estavam dois velhos á volta do fogo.

- Que merda Geremias

- Que houve sancho ?!

- As gaivotas n ão me deixam dormir

- Acho que é das pulgas

- Não é nada!

- Queres um pouco de vinho?

- Gostava de encontrar uma cabra

- Que est á s´para ai a praguejar

- Uma gaja para esta noite.

- Não tens idade para isso.

- J á viste o apito a uma tipa, aquilo é um bicho peludo de fazer um homem endoidecer.

- Vou fumar.

- Tu j á ouviste sobre a solidão

- Que tem?!

- A solidão é uma cabra, ela nos anda sempre a foder , um gajo nunca est á seguro.

- Vou preparar o papelão, com papelão se faz uma boa cama. Antigamente ia para a praia, mas tenho medo que o mar me leve.

E o mar levou com ele aquele velho, aquele pobre cheio de doença e de miseria , aquele velho que amava os cães como se ama a poesia, que a poesia não   é só dos livros também existe noutros lugares, que se encontra no lixo da vida e na felicidade

 

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Quinta-feira, 17 de Maio de 2007

Lamentos escondidos e apagados dos homens

 

Tu vieste e eu tinha a impressão que as árvores e os ruidos, os lamentos escondidos e apagados dos homens ou o lamento das máquinas tinham ficado na outra parte de ti e da cidade e do mar que preenche tantas páginas de livros, de paredes, de olhos... as canções das ruas, algumas tristes e sozinhas que cheiram a alcool e a primavera, que sabem a sangue e a pão. Este nosso encontro tinha acontecido na memória dos dias adiados, havia nas tuas mãos a remissão da culpa universal, a culpa coberta de terra ou dissipada nas nuvens. Tu vieste e o mundo precisava de ter de nós uma recordação nova. A saudade traz velhas palavras, prevemos na saudade que vamos morrer, também é certo que pela saudade levamos o amor ao plano da pluralidade e do reforço do sentir o outro, quando o outro é do outro lado...

lobo 06

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Sábado, 12 de Maio de 2007

A figura do pássaro ou do anjo

Escreve o lábio na outra boca

a figura do pássaro ou do anjo.

 

Anjo húmido sobre o corpo  divino do pecado.

 

Escreve o lábio na outra boca. A figura dos dentes eléctricos na água do poço.

 

Anjo húmido sobre os olhos cheios de fome, essa fome que nos risca o cérebro .

 

O nosso pensamento é uma ilha.

 

Escreve o lábio na outra boca, a figura do pássaro ou do anjo.

 

O palhaço da igreja do império romano.

 

Escreve o lábio

na outra boca o que há dentro da alma.

 

Anjo húmido sobre a noite

certas confissões do mar quando leva os homens.

 

O nosso pensamento é uma ilha.

 

Ficaremos tão sozinhos nesta viagem

mas em cada pedaço de chão há um fogo.

 

Escreve o lábio na outra boca.

 

A cidade está deitada

para o lado em que os homens não conseguem dormir

 

lobo 07

publicado por relogiodesacertado às 14:06
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Sexta-feira, 23 de Março de 2007

A ultima ceia do marinheiro de venesa

Trago-te aos pés o cansaço, também com os olhos se observa a viagem que a morte faz. Tu escutas o movimento da máquina de costura, na tua cabeça, na tua memória de infancia parece o cavalo de ferro. O teu pai está deitado, parece que tem os olhos vazios colados ao tecto, tu imaginas que as sombras no quarto são uma banda desenhada. Sais do quarto e fumas um cigarro, aquele fumo é a alma dele, não tens boas recordações, tu parecias um peixe fresco cheio de sangue a flutuar nas paredes do quarto. Agora não estás por asqui, encontras-te uma árvore que num dia de nevoeiro e sob o efeito de calmantes te recebeu de braços abertos, ias ao volante de um carro comprado em segunda mão. Não sei o que viste naquele momento! Nas nuvens cinzentas por de tras das montanhas ficava o colégio católico. A vida apagava-se como se tinha apagado o ar severo do teu pai.  Naquele lugar soprou um vento de tal modo forte, que a revista de banda desenhada que estava no banco traseiro voo para a rua. A tua alma levava os olhos do marinheiro de Venesa, tu gostavas que fosse ele o teu pai, que tivesse havido tempo para o recomeço. Nunca te contaram uma história, nunca te deram um beijo verdadeiramente molhado e verdadeiramente profundo. Foi muito demorado o tempo que os bombeiros levaram a chegar ao local, o sol era muito forte, com muito cuidado pegaram no teu corpo, não era o momento mas o marinheiro apareceu-te. Tinhas receio de lhe dares as mãos porque estavam frias. O som do mar e o aroma da comida árabe chegou-te ás narinas. Estavas morta, não sentias nada, ou sentias que era a primeira vez que voavas na vida. O teu marinheiro tinha a barba de uma semana, com as tuas mãos de morta não é possivel sentires a sua pele escarpada como a rocha. Tu não te queres encontrar com o teu pai, a tua alma podia ficar sentada nas dunas e tu de olhos muito fechados andas-te em volta do mercado, entras-te invisivel no café do alfarrabista, não era o vento, era o vento a desfolhar o livro dos piratas, ainda havia o cheiro da agua ardente no ar das caraibas. A atmosfera da cidade era de um cinzento pálido como se a cidade fosse uma actriz a maquiar-se e a esconder-se atrás de uma cortina de intrigas. Olhas-te as nuvens, como seria o céu se fosse um livro de banda desenhada, seria possivel falar com Deus sobre banda desenhada?! Tu olhas-te o fumo que saia da fábrica,parecia o bule onde a coruja bebe o seu chá, o marinheiro de Venesa contou que é preciso cuidado com os chás, tem de ser bem fervidos para que nenhum pedaço de aventura caia no pricipicio da angustia, o louco Rapustine com o gume da sua faca está á espreita para desferir o golpe no momento em que te sentires segura, ele está escondido com o pé na linha da primavera a recitar o alcorão. O teu pai tem muitas formas, tu o associaste ao louco Rapustine, achas que o teu pai inventou a máquina de matar a infancia. Queres descer á terra, ouvir o grito unico e implacavel da vida no ventre a dizer que te ama, do teu filho a chorar quando lhe batias como se bate na vida que não tivemos. E tu ouves a balada do mar salgado, que coisa estranha estar-se perdido no meio das nuvens , tu te sentarás na mesa da ultima ceia ao lado de Maria Madalena, o teu marinheiro de venesa partilhando o pão e o vinho. Quem é que sabe do encontro de cristo com corto maltese?! Aparentemente não há frio nem calor, o teu marinheiro desceu das nuvens como o profeta que vê para além das montanhas. Os desejos da alma misturam-se com os desejos do corpo. Tens saudades do teu vinho. O professor inexistencia fuma o seu cachimbo de opio e tu de repente te apercebes que não tens roupa. O teu marinheiro sorri, tu não tens um espelho á mão, passa por ali uma legião de anjos super herois: O mágico madrake, o fantasma, a miss Marple, a lucia, a madre teresa e Alcapone carregando uma cruz.  Gostavas que te oferecessem uma caixa de chocolates, pintarias a cara cor de terra, depois sentavas-te a desfolhar a aventura do escorpião do deserto. Há uma criança magra e um cão, a mãe do teu heroi é uma cigana de Malta, tu lês as mãos a essa criança, ela abandona a tua imaginação e tu entras por uma porta, não vais encontrar o monstro se não o fabricares. Durante a ceia conversou-se sobre aquele penalty duvidoso, Maria Madalena disse que os pasteis de nata estavam pouco doces e o gordo obelix pediu água benta para borrifar o javali. Tu olhas-te para eles e ao mesmo tempo para os esboços de Leonardo um pintor muito conhecido do grande publico. O teu marinheiro descalçou os sapatos e tu e ele dançaram em cima da mesa e tu rodaste a saia que bateu ao de leve na jarra do vinho sujando a toalha de linho. O teu marinheiro cheirou-te os pés, o velho Leonardo continuava a pintar e o gordo obelix continuava a trincar a sua perna de frango sob o olhar reprovador de alguns, pois que era sexta feira santa. Tu de repente reparas-te que eras a unica que estava nua, ninguem sabia da tua presença, Maria madalena roia as unhas e tinha umas conversas futeis, a moda de Paris e o cheiro dos queijos italianos, parecia que aquele lugar era uma representação falsa do céu ou na catequese tinham-te enganado. Estavas sentada na atmosfera, não sabias para onde iam os herois da banda desenhada quando morriam e agora vias o celebre reporter tintim a batizar o seu cão milu na água da chuva e o celebre cowboy da tua infancia a disparar estrelas da sua pistola. Com a mão afastas-te uma nuvem negra, parecia ter patas, podia ser uma formiga e tu pensaste em trabalho e também em coisas doces e debaixo das patas dessa nuvem formiga contemplas-te o mar azul como os olhos de cleoptra. Tu olhas o mar e tentas o desiquilibrio para a terra. Acordas! A espreitar á janela a fumar o seu cachimbo de ervas aromáticas está o capitão relampago, parece que é a tua primeira vida, apetece-te ir á lua, comer javali e ter ao teu lado o enigmático sorriso do marinheiro de veneza.

lobo 07

 

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Quinta-feira, 22 de Março de 2007

Todas as perguntas que me fazes

Pergunta-me coisas

todas as perguntas que me fazes, todas as palavras que me escondes.

 

As roupas

os segredos, os medos pressentidos quando a noite nos corta o corpo

como uma espada  nos iniciando na eternidade.

 

Pergunta-me coisas

todas as palavras que proferes, todos os silencios com que olhas

as mãos nos gestos, os gestos entre a multidão

num bocado de nada nasce o verbo pão.

Pergunta-me coisas das roupas ou da nudez

dos rios que se cruzam e das palavras que sopram como o vento

quando vais começar a adormeçer.

Pergunta-me coisas dos homens e das cidades, coisas da terra e da eternidade.

 

Pergunta-me coisas

as roupas e a cor dos olhos

Se tu chorares haverá apenas um perfume na tua viagem.

Todos os segredos

todas as palavras

as mãos entre os gestos

os gestos entre a multidão.

 

Num bocado de nada

nasce o verbo pão.

lobo 06

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Domingo, 21 de Janeiro de 2007

...

A noite

ou a tua pele?!

O que seremos nós depois de secomeçar a compreensão do amor.

 

A noite ou a tua pele arrancada assim uma sombra

quando a furia da boca é lume.

 

O que seremos nós velhos resistentes

a ver as canções a cair das mãos e dos dentes.

A noite ou a tua pele?

O que seremos nós

depois da carne e do gesto?!

Que visões! Essas que caem do tecto

para o corpo ,quando o mesmo é inerte e morto

 

lobo

publicado por relogiodesacertado às 17:28
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Sábado, 20 de Janeiro de 2007

A boca da terra

A boca da terra

sobre o nosso corpo

se torna como um fruto

de palavras.

 

Esse momento feito riso

doce sabor da alma

conjunção da vida, os braços que ligam

os homens entre si e entre os livros.

A boca da terra aberta em luz

um olhar fixo na natureza, as palavras que vão

ou as lagrimas que ficam, ou apenas o nu

do poder intrinseco das coisas.

lobo 07

publicado por relogiodesacertado às 11:05
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